A ‘ameaça’ de internacionalização da Amazônia é mito, por Henrique Cortez

[EcoDebate] Novamente retornam as preocupações para com a internacionalização da Amazônia, inclusive servindo de lastro para acusar os ambientalistas, ONGs e críticos da devastação, como se estivessem a soldo de interesses escusos. Como pano de fundo, temos o medo de uma pretensa internacionalização de nossa Amazônia.

Aliás, freqüentemente falamos da nossa Amazônia, das ameaças à nossa Amazônia, dos desafios da Amazônia brasileira e por aí vai, sempre esquecendo que a região não é apenas nossa. O eterno argumento em defesa da “nossa Amazônia” contra a internacionalização é um equívoco, porque, composta por 8 países, a Amazônia continental já é internacionalizada.

Então, com um pouco de geografia básica, percebe-se que a nossa Amazônia não é só nossa e não corre risco de ser “internacionalizada”, pois já pertence a mais sete países vizinhos. Precisamos é agir em parceria em sua defesa, pelo seu desenvolvimento e pela conservação de seus recursos naturais. Devemos ter a responsabilidade de compreender que os equívocos de nossas políticas públicas (ou da ausência delas) na conservação e uso sustentável da “nossa amazônia” afetam diretamente mais 7 países e, indiretamente, todo continente e, em seguida, todo o planeta.

A omissão das autoridades, a falta de uma compreensão real e efetiva do que seja desenvolvimento sustentável, a descontrolada expansão da fronteira agropecuária e a atuação impune de grileiros e madeireiros são claros componentes da sua devastação. A expansão irresponsavelmente descontrolada da fronteira agropecuária está devastando o presente e pode exterminar o futuro, não apenas do cerrado e da Amazônia, como de toda a agricultura sustentável de nosso país.

Todas as autoridades públicas, têm a obrigação de saber disto e atuar na defesa dos interesses nacionais, sem apelar para o fácil argumento de um pretenso inimigo externo, como justificativa para a ocupação e exploração irresponsável.

Mais uma vez reafirmo que, como muitos outros ambientalistas, compreendo o desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento.

E continuaremos repetindo à exaustão que este equivocado modelo de desenvolvimento é apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.

Por outro lado, o discurso do risco de internacionalização, com invasão pelos marines e tudo mais, apenas serve à direita desenvolvimentista, que sempre usa pretensas ameaças externas como justificativa do que quer que seja. É importante lembrar que a ditadura militar cansou de usar o pseudo-argumento “Integrar para não entregar”, na tentativa de justificar a ocupação desordenada da Amazônia, raiz de sua devastação.

Todos os recursos da Amazônia, a nossa e dos outros, já está à disposição do mercado internacional, tendo em vista a perpetuação de nossa pauta colonial de exportação de produtos primários, que corresponde a mais de 50% de nossas exportações. Ninguém precisa nos invadir simplesmente porque já vendemos tudo aos “melhores” preços, sem que isto tenha realmente contribuido para a melhoria dos indicadores sociais e econômicos da região.

Não há qualquer recurso natural que já não esteja à disposição dos interesses econômicos, nacionais e transnacionais.

Além dos discursos e bravatas pouco ou nada fazemos de real pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia, da nossa e dos nossos vizinhos, além de não temos uma verdadeira estratégia de integração com os demais países amazônicos.

Para que a “nossa” Amazônia seja realmente nossa, precisamos retoma-la dos grileiros, madeireiros ilegais, agro-gananciosos, garimpeiros ilegais e outros devastadores, incluindo políticos que ainda agem como donatários das Capitanias Hereditárias. Ela será nossa na exata medida em que formos efetivamente responsáveis pelo seu destino.

Não creio que corremos o risco real de ter a “nossa” Amazônia invadida em prol da governança global, mas certamente teremos problemas nas relações multilaterais, no acesso aos financiamentos internacionais e no boicote aos nossos produtos e serviços, inclusive justificando uma renovada onda protecionista. Este é um risco real e imediato.

Não há como negar que seremos cobrados e muito. Cobrados e com razão. Mas ainda temos tempo e oportunidade de dizer a nós mesmos, antes de dizer ao mundo e aos nossos vizinhos, que somos capazes de agir com responsabilidade e seriedade.

Henrique Cortez, ambientalista, coordenador do portal EcoDebate
batendo bumbo

EcoDebate

Reservas florestais são importantes para reduzir os impactos das queimadas na Amazônia

reservas

[Por Henrique Cortez, do EcoDebate] As reservas florestais (UC, Flona’s, etc), sempre sob severa crítica do expansionismo agropecuário, mostram ser importantes para reduzir a devastação das queimadas. Esta é a conclusão de um estudo [Reserves Protect against Deforestation Fires in the Amazon] publicado na edição de 8/4 da revista online PLoS ONE.

Pesquisadores da Duke University demonstraram a importância das reservas florestais, mesmo quando atravessadas por estradas, ao funcionarem como barreiras ao avanço dos incêndios florestais.

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Amazônia ameaçada: Stephanes diz que o Brasil abastecerá 70% do mercado mundial de carnes em dez anos, por Henrique Cortez


Trecho de floresta na Amazônia, em foto de arquivo EcoDebate

[EcoDebate] O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, em declarações à Agência Brasil, disse ontem (23/10) que projeções feitas por técnicos da pasta indicam que em dez anos o Brasil deve responder por 70% do mercado mundial de carnes. As exportações brasileiras de carnes, em 2007, chegaram a U$ 11,295 bilhões, perdendo apenas para soja e derivados (U$ 11,381 bilhões) como produto de maior importância na balança comercial do agronegócio.

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Estudo afirma que projetos de petróleo e gás na Amazônia ameaçam a vida selvagem, a biodiversidade e os povos indígenas


A pesquisa, publicada pela PLoS ONE, Public Library of Science, afirma que a Amazônia Ocidental é trecho mais rico biologicamente da bacia do Amazonas e é o lar de uma grande diversidade de etnias indígenas, incluindo algumas ainda em isolamento voluntário. Por Henrique Cortez, do EcoDebate.

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