Algumas reflexões sobre o ambientalismo atual, II, por Henrique Cortez

[EcoDebate] Os comentários e opiniões sobre o editorial anterior (Em debate: Algumas reflexões sobre o ambientalismo atual) permitem duas conclusões possíveis: 1) ninguém tem dúvidas de que passamos por uma grave crise sócio-ambiental; e 2) afora esta certeza, compartilhamos incontáveis questionamentos do que fazer e como fazer.

Alguns destes questionamentos já haviam sido discutidos em editoriais anteriores (Não é fácil ser ambientalista , A quem serve a devastação ? , Este modelo de desenvolvimento é insustentável , Hidroeletricidade não é sinônimo de sustentabilidade , Os ataques do setor elétrico ao IBAMA e aos ambientalistas e Vamos à luta ), os quais estamos recolocando em discussão e debate.

A maior de todas as tragédias desta crise está no fato de que as soluções possíveis, também trarão resultados severos em curto prazo, podendo, inclusive, trazer grandes conseqüências para a qualidade e padrão de vida de uma boa parte da população mundial

No caso brasileiro, também teremos que tomar decisões muito difíceis, com conseqüências na qualidade de vida, nas opções de consumo e na geração e manutenção de emprego e renda. É por isto que nenhum governo, até agora, tratou a fundo destas questões – simplesmente porque, mesmo que necessárias, estas decisões poderiam significar o suicídio político de quem as tomasse.

Parece exagero? Então vejamos:

Mega-cidades
Nossos centros metropolitanos estão crescentemente caóticos e, parece, uma tendência irreversível. Quem tomará a decisão de que o crescimento de uma cidade deve ter limites? Quem assumirá a responsabilidade e o ônus de impor um padrão de planejamento urbano que defina claramente como a cidade funcionará, que tamanho terá e como irá estruturar os seus serviços públicos?

Como fazer que prefeitos de diversas cidades de uma região metropolitana passem a administrar de forma integrada e coordenada, no sentido de que o todo tem precedência sobre as partes? Quem irá coordenar? Como compartilhar arrecadação, orçamento e serviços? Quem abrirá mão de uma fração de seu poder autônomo pela gestão compartilhada?

Quem fará a remoção da população em área de risco e a reassentará em condições melhores e mais seguras? Quem abrirá mão dos votos das áreas favelizadas? Que político deixará as ações meramente assistencialistas e populistas por políticas públicas com “P” maiúsculo?

Não há quem consiga administrar o gigantismo de nossas metrópoles, mas quem terá a grandeza de reconhecer isto? E, reconhecendo, terá coragem de tomar as decisões necessárias?

Transportes
Quem terá realmente a coragem de planejar e implantar um sistema de transporte urbano minimamente eficaz? Como integrar, coordenar e gerenciar todos os transportes públicos municipais e metropolitanos? Quem irá planejar a malha viária para o transporte coletivo, desestimulando e, se necessário, restringindo o transporte individual?

Política Industrial
Quem compreenderá que a política industrial deve ser focada na sustentabilidade e na eficácia social e ambiental? Quem definirá padrões e metas de eficiência na utilização de recursos naturais no processo de produção? Que político terá a coragem de realmente trocar as mega-obras de geração e distribuição de energia elétrica por padrões adequados de consumo, através de incentivo à eficiência energética?

Quem assumirá a responsabilidade de reduzir a nossa produção anual de 2,5 milhões de automóveis para menos da metade? Quem irá definir padrões máximos de consumo de energia de aparelhos e equipamentos ou de consumo de combustível? Quem irá sobretaxar o consumo de produtos supérfluos, de produção perdulária em termos de consumo de recursos naturais?

Estes são apenas alguns exemplos superficiais de difíceis decisões, que nenhum governante aceitará tomar. Todos preferirão as medidas meramente mitigadoras, com muito marketing e pouco resultado real.

Mas a responsabilidade maior é nossa e não dos políticos de plantão. Quem de nós apoiará medidas tão duras como algumas das descritas acima? Quem aceitará os sacrifícios? Quem abrirá mão de uma fração de seu consumo?

Reclamamos da hipocrisia dos políticos e dos partidos, mas preferimos ignorar que nós os elegemos e que eles refletem a nossa própria ambigüidade. Que apoio popular teria alguém com a “grandeza” necessária para iniciar as mudanças necessárias? Simplesmente nenhum.

Se realmente acreditamos no desenvolvimento sustentável, se apoiamos e defendemos um outro modelo de desenvolvimento, então devemos nos preparar em enfrentar restrições, limites e o condicionamento de nossos interesses individuais aos interesses de toda a sociedade, nacional e planetária.

Caso contrário, continuaremos meramente discursivos. Ou, dizendo de outra forma, seremos tão hipócritas quanto os políticos que elegemos…

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate

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