Desperdício de alimentos e as crises ambientais, por Henrique Cortez

[EcoDebate] O tema parece estranho porque estamos mais acostumados a criticar o desperdício de alimentos diante da fome de 850 milhões de pessoas. O desperdício, diante da fome de tantos, é realmente inaceitável, mas também possui outras implicações, nem sempre tão visíveis.

A relação entre o desperdício de alimentos e as mudanças globais foi proposta pelo jornal inglês The Independent, na sua edição de 02/11/2007, ao falar do colossal desperdício no Reino Unido.

A matéria cita informações do ministério do meio ambiente, de que, anualmente, são desperdiçadas 6,7 milhões de toneladas de alimentos, ao custo de 200 a 400 libras por família, o que equivale a um terço de todo o alimento consumido no Reino Unido. Considerados todos os custos (transportes, embalagem, manuseio, refrigeração, descarte, etc) o desperdício custa 8 bilhões de libras ao ano.

No caso brasileiro, as pesquisas indicam que também desperdiçamos 30% de todo o alimento consumido. O último dado confiável é do IBGE que, em 1999, informava que tínhamos desperdiçado 39 milhões de toneladas de alimentos. O IBGE calculava que seria o necessário para alimentar 19 milhões de brasileiros.

Este desperdício ocorre ao longo de toda a cadeia produtiva, da colheita/criação/abate, transporte, processamento, embalagem, armazenamento, distribuição até as nossas mesas. Nosso desperdício, de 1999 para cá, certamente aumentou e muito.

Já em 1999, o desperdício brasileiro em relação aos britânicos era muito maior em termos absolutos, mas, também era maior em termos relativos, porque nossa população é três vezes maior e desperdiça quase seis vezes mais que o Reino Unido.

Nem sei quantos bilhões de reais custa este desperdício, seguindo a lógica de cálculo usada pelo ministério do meio ambiente do Reino Unido. Qualquer que seja este valor absurdo, ele é inaceitável, tanto em termos sociais como econômicos e ambientais. Socialmente é injustificável jogar fora a comida que poderia alimentar mais de 20 milhões de brasileiros.

Bem, mas ambientais por que?

Em primeiro lugar, porque alimento é água. A compreensão do que seja água virtual, nos indica que um quilo de carne bovina “inclui” de 10 a 20 mil litros de água. Um quilo de arroz de mil a dois mil litros de água. Um mero e simples filé com fritas equivale a “comer”, pelo menos, dois mil litros de água.

Neste sentido, o desperdício de alimentos é um gigantesco desperdício de água e este é um dos mais sérios problemas sócio-ambientais do século XXI.

Em segundo lugar, é um potente emissor de metano. Qual é a emissão de metano pelos alimentos jogados nos aterros sanitários e lixões?

65% do lixo domiciliar no Brasil é composto por matéria orgânica, essencialmente resíduos alimentares (folhas, talos, cascas, gordura animal, restos de alimentos preparados, etc.). De qualquer forma, mesmo considerando apenas o lixo doméstico, fica claro que o desperdício de alimentos é uma parte substancial do lixo descartado pelos brasileiros.

Em termos de aquecimento global, sempre pensamos no metano a partir da emissão pelos animais ruminantes, pelos campos de arroz, pelos pântanos e pelos reservatórios, mas os aterros e lixões são importantes emissores de metano, um gás com potencial de aquecimento vinte vezes maior do que o CO2.

O metano, nos aterros e lixões, é produzido pela fermentação da matéria orgânica no lixo e aqui o desperdício de alimentos influencia a emissão, potencializando a produção de metano.

Assim, evitando desperdiçar alimentos, comprando o necessário, na quantidade necessária e preparando de modo adequado, estaremos obtendo 3 ganhos diretos:
1 reduzimos gastos em nossos orçamentos domésticos;
2 induzimos o aumento da oferta em relação à demanda e, com isto, também a redução do preço por tonelada dos alimentos, o que poderá reduzir o número de famintos, que não conseguem pagar pelo alimento; e
2, ao mesmo tempo, estaremos contribuindo para a redução da produção de metano.

Podemos e devemos eliminar o desperdício de alimentos. O planeta, a sociedade e o nosso bolso agradecem.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate

P.S. – como a fome, de mais de 850 milhões de pessoas, parece não ser suficiente para sensibilizar muitas pessoas, quem sabe o aquecimento global venha a ser um argumento mais “forte” para incentivar a redução do desperdício.

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