A batalha contra o aquecimento global já está perdida? por Henrique Cortez

Precisamos vencer a luta contra nós mesmos ou muito perderemos. Muito mais do que apenas o nosso perdulário padrão de consumo.

[EcoDebate] O movimento ambientalista evita dizer a verdade sobre o aquecimento global e as mudanças climáticas, temendo que isto incentive uma atitude de inércia, em relação às mudanças necessárias.

Pessoalmente discordo desta “estratégia” de comunicação, nem que seja porque o processo de aquecimento global já está em uma espiral crescente e as mudanças climáticas já causam severos impactos em todo o planeta. Nos aproximamos de uma crise quase apocalíptica, que deve ser enfrentada sem meias palavras.

Precisamos de um debate honesto, franco e com argumentos às claras. Fugir do assunto aquecimento global pode ser fácil e cômodo, mas também é suicida.

O jornalista e militante ambientalista, George Monbiot, acertadamente, define que a luta contra o aquecimento global é uma luta contra nós mesmos. É exatamente esta batalha que estamos perdendo.

Sofreremos as terríveis conseqüências do aquecimento global, porque não somos capazes de reconhecer que nosso padrão de consumo é insustentável e não temos coragem de assumir que nosso modelo de desenvolvimento é predatório e injusto. Quanto mais protelamos as decisões, mais agravamos o desastre que se anuncia.

A frota mundial de veículos ultrapassa 800 milhões de unidades, crescendo mais de 30 milhões ao ano. Esta é uma crescente crise ambiental tida como consenso, mas um consenso oco porque ninguém está disposto a abrir mão de seu fetiche automotor. O barril de petróleo caminha para a marca de US$ 200 e nem assim pensamos em reduzir a demanda. Ao contrário, consumimos automóveis cada vez maiores, com maior consumo de combustível e maior emissão de gases.

A produção de alimentos é muito superior ao necessário para alimentar o planeta, mas a especulação e nosso desperdício (em média uma família brasileira desperdiça 0,5 Kg ao dia) exigem produção crescente, fazendo com que a fronteira agropecuária avance sobre as florestas. A exigência de maior produtividade impõe cada vez mais agroquímicos, que envenenam o solo, os mananciais e nos envenenam lentamente todos os dias.

Ninguém está disposto a reduzir a demanda crescente de energia elétrica, mesmo que isto signifique mais barragens, mais termelétricas a carvão, gás ou nuclear, represando ou vaporizando volumes imensos de recursos hídricos cada vez mais escassos. Todos concordam com este “sacrifício”, desde que ele seja no quintal do vizinho.

Nosso delírio consumista já consome o equivalente a 1,4 planeta a mais do que temos. E ninguém está disposto a reduzir o padrão de consumo.

E não adianta fugir do assunto, porque, cedo ou tarde, enfrentaremos as conseqüências de nossa hipocrisia. Ou, para ser mais exato, nossos netos enfrentarão as conseqüências de viver em um planetinha horrível.

Se optamos por nada mudar, por que esperamos que o G-8 faça diferente? Por que Brasil, China e Índia abririam mão de seu “direito” de emissão, se pensamos o mesmo e exigimos o mesmo direito pessoal de consumir irresponsavelmente. Todos os governos decidiram nada decidir, porque é o mesmo que todas as pessoas, hipocrisias à parte, também decidiram.

Por outro lado, dentre a população e os líderes do G-8, há os que acreditam nas vantagens do aquecimento global, a partir de 2050.

Sabem que enfrentarão conseqüências graves, com furacões, tornados, ciclones, tempestades de neve, chuvas torrenciais, inundações, etc, mas acreditam que podem arcar com estes custos e ainda lucrar com isto.

As fronteiras agrícolas do hemisfério norte se expandirão, com novas áreas agricultáveis no norte do Canadá, nas estepes siberianas ou na Escandinávia.

No pobre, feio e sujo hemisfério sul acontecerá exatamente o contrário. Mais de ¼ do planeta estará desertificado ou em rápida desertificação, condenando mais de 1,5 bilhões de pessoas à insegurança alimentar e à fome.

Será uma tragédia humanitária em escala global, mas que interessa à geopolítica do G-8, que poderá controlar a maior parte da produção de alimentos, devidamente protegida por um aparato militar inquestionável, o que, facilmente, deixará a maior parte dos paises pobres de joelhos.

Há, ainda, quem veja um efeito “higienizador” nesta crise humanitária, porque estará condenando à morte os pobres, os velhos e os indesejados do terceiro mundo.

Ainda não é um cenário apocalíptico, mas quase.

Antes que pensem que estou exagerando, avaliem um pouco mais e olhem à sua volta. Mas, acima de tudo, acreditem que perdemos a batalha contra o aquecimento, mas que ainda podemos vencer a guerra contra as suas piores conseqüências.

Precisamos vencer a luta contra nós mesmos ou muito perderemos. Muito mais do que apenas o nosso perdulário padrão de consumo.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate

[EcoDebate, 12/07/2008]

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