Estudo afirma que a pesca em pequena escala é a melhor esperança de uma pesca sustentável


A pequena pesca pode produzir o máximo anual de capturas necessárias para o consumo humano, consumindo 1/8 do combustível utilizado na pesca industrial. É o que afirma um estudo da University of British Columbia, UBC , divulgado no dia 25/08/2008. Por Henrique Cortez*, do Ecodebate.

No estudo da UBC, a pequena pesca se caracteriza pela produção através de pescadores que operam em barcos de 15 metros ou menos.

“Eles (os pequenos pescadores) são a nossa melhor esperança de uma pesca sustentável”, diz Daniel Pauly, diretor do Centro de Pesca da UBC e co-autor de um estudo publicado na edição atual da revista Conservation Biology.

O estudo demonstra o montante dos subsídios que a pesca em grande escala, a pesca industrial, recebe em relação à pesca em pequena escala, principalmente a pesca costeira. Por exemplo, em média global, a pesca industrial recebe subsídios de combustível equivalentes a 200 vezes do que recebe o pescador de pequena escala.

“A pequena pesca emprega mais de 12 milhões de pessoas em todo o mundo, comparativamente ao meio milhão no setor industrial”, diz Jennifer Jacquet, co-autora do estudo e PhD do Centro de Pesca da UBC. “E a pequena pesca utiliza menos combustível para a captura de peixes.”

Uma ilustração comparando pequena e grande escala pesca está disponível em http://www.publicaffairs.ubc.ca/download.

“A pequena pesca utiliza técnicas de pesca mais seletivas e muito menos destrutivas”, disse Jacquet. “Como resultado de pesca indesejada eles descartam pouco peixe e quase a totalidade das suas capturas são utilizadas para o consumo humano.”

A pesca em larga escala, por outro lado, tipicamente, captura várias espécies sem valor comercial, não selecionadas para consumo humano e descartam uma estimativa de 8-20 milhões de toneladas de peixes, o que reduz, a cada ano, mais de 35 milhões de toneladas de peixe para a sua captura anual.

Ao longo da última década, com base nas iniciativas de mercado sustentável, tais como a rotulagem ecológica, têm sido predominante a estratégia de redução da procura x diminuição dos recursos pesqueiros. Nos EUA a comunidade, por si só, investiu US$ 37 milhões entre 1999 a 2004 para promover a certificação e incentivar os consumidores a comprar peixes capturados com práticas sustentáveis.

“Para a quantidade de recursos investidos, não vimos o decréscimo significativo da procura de espécies para as quais as reservas mundiais estão à beira do colapso”, diz Pauly. “Iniciativas de mercado, embora bem intencionadas, indevidamente discriminam os pescadores de pequena escala, que não possuem recursos para fornecer dados para a certificação.”

Além disso, os pequenos pescadores simplesmente não podem competir no mercado aberto com grandes frotas. Rashid Sumaila, também da UBC, estima que os governos mundiais subsidiam US$ 30-34 bilhões por ano em operações de pesca, dos quais US$ 25-27 bilhões (70%) é destinado às grandes frotas pesqueiras.

“É uma injusta desvantagem, que em qualquer outra indústria teria levado as pessoas para a guerra”, disse Jacquet. “Mas os pescadores de pequena escala são, muitas vezes, dos países em desenvolvimento e têm pouca influência política.”

Pauly e Jaquet dizem que eliminar os subsídios governamentais é a estratégia mais eficaz para reduzir significativamente a pressão sobre as unidades populacionais pesqueiras vulneráveis em escala global.

“Sem subsídios, a maior parte das operações de pesca em grande escala pesca será economicamente inviável”, disse Jacquet. “Pescadores de pequena escala terão uma chance melhor de prosperar em mercados locais e os recursos pesqueiros mundiais terão a oportunidade de recuperação”.

O estudo, por similaridade, também é aplicável ao Brasil, principalmente se considerarmos que a pesca industrial é extremamente predatória, inclusive pelo uso, em larga escala, das redes de arrasto.

Os custos operacionais da pesca em escala industrial também possuem impacto no preço ao consumidor, o que pode ser facilmente percebido por quem quer que já tenha adquirido pescado em uma cooperativa de pesca ou diretamente com comunidades de pescadores.


O artigo Funding Priorities: Big Barriers to Small-Scale Fisheries está disponível online para assinantes da revista Conservation Biology, Volume 22 Issue 4 (August 2008) (p 832-835):
JENNIFER JACQUET, DANIEL PAULY
Published Online: Jul 15 2008 2:24PM
DOI: 10.1111/j.1523-1739.2008.00978.x
PDF

Sobre o crescente esgotamento dos recursos marinhos em razão da pesca industrial predatória sugerimos que leiam:

Estudo da ONU avalia a degradação e a superexploração dos recursos marinhos

superexploração dos recursos marinhos: Oportunidade perdida, artigo de João Lara Mesquita

Demanda asiática acelera sumiço de tubarões no Brasil. Governo terá plano de proteção aos tubarões em 2009, diz Ibama

A privatização dos oceanos? Entrevista especial com Fabio Lang da Silveira

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Os mares pedem ajuda, artigo de João Lara Mesquita

Humanos já alteraram 100% dos oceanos

Adicionalmente sugerimos que acessem o artigo “Gestão integrada e participativa da pesca artesanal: potencialidades e obstáculos no litoral do estado de Santa Catarina”, de Gabriel Nunes Maia Rebouças; Ana Carla Leão Filardi; Paulo Freire Vieira, clicando aqui

Com informações da University of British Columbia

[EcoDebate, 27/08/2008]

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