França: Vazamento de urânio numa unidade Comurhex, da Areva, em Pierrelatte


Um pequeno vazamento de urânio, provocado por um defeito em um duto, foi detectado no dia 22/08, numa unidade da empresa Comurhex, filial do grupo nuclear Areva, em Pierrelatte, no Sudeste da França. Da Agência Lusa, com informações complementares de Henrique Cortez, do Ecodebate.

O vazamento foi descoberto durante os trabalhos de modernização de uma nova obra de conversão de urânio, informou a Comurhex em comunicado.

“Pequenas quantidades de urânio passaram pelo duto que é utilizado de forma ocasional. Como o seu fluxo é muito fraco e irregular, a quantidade de urânio vertida será menor que 250 gramas por ano, sem risco para as pessoas”, afirmou, ainda.

No comunicado, a empresa diz também que a Autoridade de Segurança Nuclear já foi informada e que está já em curso um estudo para determinar o “eventual” impacto do vazamento no meio ambiente.

A unidade de Pierrelatte está integrada ao complexo nuclear de Tricastin, onde no início do mês se registaram fortes fugas de carbono 14 gasoso. Esse incidente foi o sexto verificado no espaço de um mês. A Comurhex (Comurhex Societe pour la Conversion de l’Uranium en Metal et Hexafluore), em Pierrelatte, é uma unidade industrial que converte urânio tetrafluoride (UF4) em urânio hexafluoride (UF6).

A 04 de Julho, a Socatri, filial da Areva, “número um” em nível mundial do “mercado” nuclear civil, revelou que em Junho tinha-se ultrapassado o limite de escape de carbono 14 gasoso, situação que se continuou a verificar mesmo depois da paralização das atividades naquela unidade.

Na noite de 7 para 8 de Julho, também em Tricastin, registou-se um vazamento de 74 quilos de efluentes de urânio que “contaminaram ligeiramente” uma centena de trabalhadores.

Alguns dias depois, registou-se outro vazamento de líquidos radioativos numa fábrica de combustíveis em Romans-sur-Isère (Drôme) e, em 18 de Julho, 15 funcionários foram contaminados “muito ligeiramente” por elementos radioativos, numa oficina de manutenção de uma unidade de produção da central nuclear de Saint-Alban/Saint-Maurice (sudeste).

Cinco dias depois, registou-se outro incidente na central de Tricastin que contaminou “sem gravidade” outros cem trabalhadores da central, que tem quatro reatores de 900 megawatts.

A França possui a segunda rede no mundo de reactores nucleares (58), depois dos Estados Unidos.

Entretanto, também hoje, em Idaho Falls, nos Estados Unidos da América, responsáveis da companhia Areva NC Inc. anunciaram que, em Outubro, vão entregar à Comissão Reguladora Nuclear uma proposta para construir uma unidade de enriquecimento de urânio em Idaho.

Bob Poyser, o vice-presidente da Areva para os assuntos ambientais e desenvolvimento sustentável revelou que o objetivo é começar o enriquecimento de urânio em 2014 e que a unidade deverá ser construída perto do Laboratório Nacional de Idaho, onde cientistas fazem investigações sobre energia nuclear desde 1940. A Areva NC Inc, sediada em Bethesda, Maryland, é uma susidiária da francesa Areva Group.

Areva controi uma unidade semelhante na França, que recebe 80% da sua electricidade de reatores nucleares.

Na Europa, ao contrário do Brasil, EUA, Rússia e China, prevalece o princípio da transparência de informações, o que leva as empresas e agências de segurança nuclear a manterem informadas a sociedade e a imprensa sobre todos os incidentes em instalações nucleares.


A Agência Portuguesa do Ambiente, por exemplo, informa que no ano 2000, em que ocorreram um total de 637 eventos classificados na Escala Internacional de Ocorrências Nucleares (INES)(vejam quadro)

A realidade demonstra que as reiteradas afirmações da segurança na energia nuclear é apenas um mito. Incidentes/acidentes ocorrem com frequencia, embora as catástrofes sejam realmente raras. Raras, mas não improváveis.

Ameaça maior está na desinformação deliberada, na qual a sociedade não é correta e adequadamente informada de todos os incidentes/acidentes nucleares, com pseudo-argumento dos interesses de segurança nacional.

Em relação à crescente escalada de “incidentes” nucleares, sugerimos, ainda, que leiam nossas matérias já publicadas:

Espanha: Conselho de Segurança Nuclear convoca os controladores das centrais nucleares para discutir os últimos acidentes, de 26/08/2006

Espanha: Incêndio interrompe funcionamento da central nuclear de Vandellós II, 25/08/2008

Espanha: Vazamento radioativo pode resultar em multa de até 22,5 milhões de euros, 21/08/2008

Usina nuclear de Tricastin sofre vazamento de gás carbono 14 e é o sexto acidente nuclear na França em um mês, de 07/08/2008

Vazamento de plutônio em laboratório da AIEA na Áustria, de 04/08/2008

Incêndio em reator nuclear finlandês ainda em construção, de 01/08/2008

Acidentes nucleares lançam a França em um pesadelo de filme sci-fi, 29/07/2008

Vazamentos nucleares preocupam França, de 25/07/2008

Novo acidente nuclear em Tricastin é o quarto na França em 15 dias, de 25/08/2008

Novo vazamento radioativo em usina nuclear francesa, de 21/07/2008

Todas as centrais nucleares francesas serão avaliadas após recente vazamento em Tricastin, de 19/08/2008

Central nuclear de Cofrentes, na Espanha, entrou em alerta de segurança pela abertura indevida de uma válvula, de 14/08/2008

Nota: o incidente também foi noticiado pelo ParisMatch, 23/08/2008 – 12:31: “Fuite d’uranium chez Comurhex (Areva): “impact environnemental mineur” selon la préfecture

[Ecodebate, 27/08/2008]

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