Seca na Bulgária afeta centenas de milhares de pessoas


A Bulgária sofre com um verão excepcionalmente seco, agravado pelo atraso na construção de barragens e o crônico desperdício de água, em razão de vazamentos no sistema de distribuição. De acordo com o ministério do desenvolvimento regional, em 02/09, 197.580 pessoas, em 281 vilas e aldeias, estão sujeitas a algum tipo de racionamento da água. Por Henrique Cortez, do EcoDebate, com Agências.

“Os cortes são quase certos, também, para as pessoas em várias outras regiões centrais e ocidentais na Bulgária, cujo abastecimento de água potável não é garantido por barragens, mas provêm exclusivamente das montanhas e captações da primavera”, informou o ministério do Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

Os resortes no Mar Negro também foram responsabilizados pela crise, devido a expansão do turismo e a construção frenética em locais com baixa capacidade de oferta de água, além da falta de tratamento de esgoto e instalações de tratamento de águas residuais.

Entre 10 e 25% da Bulgária, com população de 7,6 milhões, foram submetidos ao racionamento de água no verão, ao longo da última década, segundo dados do ministério para o desenvolvimento regional.

“A Bulgária está entre os cinco estados mais pobres da UE, em termos de recursos hídricos, com um fluxo médio anual de cerca de 15,7 bilhões de metros cúbicos – ou cerca de 2.300 a 2.500 metros cúbicos por pessoa por ano -, em comparação com 10.000 metros cúbicos por pessoa na vizinha Romênia “, disse Tsvetanka Dimitrova, ministério do Meio Ambiente e Recursos Hídricos.

“Além disso, a maioria desta água flui de rios em países vizinhos e a única forma de assegurar uma oferta constante de reservas de água potável é através de um sistema de barragens”, acrescentou.

Doze barragens na Bulgária são utilizadas exclusivamente para esse fim, acumulando 1,5 bilhões de metros cúbicos de água.

Mas a falta de financiamento adiou a construção de seis novas barragens para garantir o abastecimento de outras regiões.

Além disto, as redes de água e esgoto são antigas e obsoletas, construídas com cimento amianto, o que significa grandes perdas por vazamentos e contaminação da água tratada.

A taxa média, de perda por vazamentos, é pouco superior à média de perda no sistema de distribuição no Brasil. Na Bulgária, 60% da água tratada distribuida nunca atinge os consumidores. Em algumas regiões da Bulgária as perdas podem atingir 90%. No caso brasileiro a média de perda é 40%, chegando a 78% em Porto Velho, Rondônia.

Diariamente nas capitais brasileiras o desperdício de água potável equivale a 2.500 piscinas olímpicas (em média 2,5 milhões de litros de água). E a culpa neste caso, não é do consumidor. A perda de cerca de seis bilhões de litros – o suficiente para abastecer 38 milhões de pessoas – acontece entre a retirada dos mananciais e a chegada às torneiras.

“Na Bulgária, há uma opinião comum que a água é um dom de Deus, não custa nada e não é que vale a pena salvar. Isto não é absolutamente verdade”, disse, recentemente, o Ministro de Desenvolvimento Regional, Asen Gagauzov .

A média diária a utilização da água per capita da Bulgária é relativamente elevada, mas apenas cerca de 10% de toda água potável é utilizada para beber e cozinhar, enquanto o restante é utilizado para fins de irrigação ou indústria.

“É um crime a utilização de água potável para a irrigação quando as pessoas não têm o suficiente para beber”, queixou Dimitrova.

Para poupar recursos, o ministro do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Dzhevdet Chakarov, proibiu que a água das barragens tivesse outro uso que não fosse o consumo humano e as diferentes necessidades domésticas.

O caso búlgaro deve ser avaliado com cuidado pelas autoridades brasileiras, tão ou mais negligentes com o acesso à água e sua distribuição.

Lá como cá, os “estoques” de água são intensamente utilizados na irrigação, mesmo que isto signifique reduzir a disponibilidade hídrica para a maioria da população.

Lá como cá, tradicionalmente não se paga pela captação de água bruta, o que incentiva a um desperdício médio de 50% da água utilizada na agricultura. Ou que as empresas (públicas ou privadas) de distribuição de água não se importem com perdas superiores a 50%, simplesmente porque o custo será rateado entre todos os consumidores.

Ninguém se preocupa com desperdícios quando, de fato, nada tem a perder com isto.

Que o caso da Bulgária seja um exemplo a ser evitado.

[EcoDebate, 03/09/2008]

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