Termelétricas a carvão continuam reinando absolutas, por Henrique Cortez

Estudos afirmam que a simples redução da queima de carvão já seria o suficiente para reduzir a ameaça das mudanças climáticas, mas nada indica que, até o final do século XXI, o carvão deixe de reinar como principal fonte de geração de energia elétrica.

Em escala global, o carvão responde por 40% da geração de energia elétrica e novos projetos de usinas termelétricas a carvão continuam a ser instalados, mesmo diante da sua maciça emissão de CO2. A razão é muito simples: as reservas mundiais de carvão são estimadas em cerca de 7 trilhões de toneladas.

As reservas norte-americanas, chinesas e australianas são suficientes para atender a demanda durante alguns séculos, nas taxas de consumo atuais.

De forma simplificada, podemos usar os EUA como exemplo da perenidade do carvão e da ojeriza à qualquer meta de redução de CO2. Em termos estratégicos é importante destacar que, mantidos os níveis de consumo de 2000, os EUA possuem reservas de carvão para mais 500 anos, com custos de exploração há muito amortizados, o que facilita a compreensão da razão para a geração termelétrica a carvão ser equivalente a 56,2% em sua matriz de geração.

Mesmo se apenas consideramos a questão da energia elétrica e desconsideramos outras fontes de emissão de CO2 (automóveis, indústria, etc.) ainda assim podemos compreender melhor as implicações na redução da emissão. Para reduzir as emissões de CO2 originadas de termelétricas a carvão e gás natural (69,2% de toda a geração) os norte-americanos teriam que reduzir a oferta de energia ou substituir estas fontes de geração, modificando o modelo de sua matriz energética.

Reduzir o consumo significa impor grandes modificações culturais e sociais, com relevantes impactos na economia. O atendimento ao aumento de demanda significa aumentar a capacidade de geração, ampliando problema. Por outro lado, reduzir a oferta, racionando a energia disponível para consumo, naturalmente desarticularia a toda a economia, com sérios impactos em emprego e renda, o que traria um custo político inaceitável para qualquer governante.

Substituir a geração termelétrica a carvão por outra também seria complicado. Em primeiro lugar substituir pelo que? A possibilidade de expansão da geração hidrelétrica é limitada e não iria efetivamente repor o volume de geração a ser substituída. As fontes alternativas, tais como eólica e fotovoltaica, no atual estágio tecnológico, ainda não são eficientes a ponto de permitir a substituição de 40% de toda geração elétrica mundial. A única alternativa, tecnicamente viável, seria a intensiva utilização da energia nuclear. É este, em essência, o argumento de Lovelock de que a energia nuclear é a única viável para substituir a energia termelétrica a carvão.

Mas a energia nuclear é a única viável para substituir a energia termelétrica a carvão apenas em tese, porque para substituir o atual parque instalado de usinas termelétricas a carvão seria necessário construir e ativar uma usina nuclear por mês até 2050. Ou seja, não vai acontecer.

Enquanto isto, nos EUA e Europa ganha corpo a defesa do “carvão limpo” (clean coal). Por clean coal entenda-se o descarte do carvão de altos teores de cinzas e enxofre, lavando o combustível para remover mais cinzas e enxofre, gaseificando o carvão para utilização em turbinas de ciclo combinado ou a queima em leito fluidizado pressurizado, adotando filtros para remover os gases de enxofre e de nitrogênio formados na combustão.

“Na comparação com as antigas técnicas de uso do carvão, como por exemplo, as da usina Jorge Lacerda de Tubarão, Santa Catarina, o “clean coal” apresenta algumas vantagens ambientais, mas não consegue fazer desta energia uma fonte limpa. O tratamento e disposição final dos resíduos de mineração e combustão permanecem problemas de difícil solução, enquanto grandes quantidades de poeira inalável, gases de nitrogênio e enxofre são emitidos mesmo depois dos filtros que podem – segundo dados de catálogo e em condições ideais – reter 99% dos poluentes gerados”. (informações de Délcio Rodrigues, físico e diretor de campanhas do Greenpeace, in Termelétricas a carvão: a melhor aposta?).

Na campanha presidencial norte-americana, tanto Obama como McCain já firmaram suas posições em defesa do “clean coal” e, no caso de McCain, até o defendeu como sendo uma energia “limpa”, desconsiderando as emissões de CO2 e seus impactos climáticos. Ambos defendem investimentos em tecnologias compensatórias de emissão;

Já existem pesquisas e projetos experimentais de “enterrar” o CO2 no solo e no oceano, de forma a compensar as emissões das termelétricas a carvão. Certamente não é uma solução definitiva ou de longo prazo, mas, se funcionar, permitirá uma sobrevida ao carvão como combustível. A Europa caminha na mesma direção.

A China, na outra ponta da questão, nem mesmo adota ou pretende adotar o “clean coal”, mantendo a sua geração termelétrica a carvão como principal fonte. Centenas de mineiros morrem a cada ano e, das 20 cidades mais poluídas do mundo, 16 são chinesas exatamente em razão da geração de energia a partir do carvão.

A China, ao longo dos próximos 50 anos, deve colocar em operação 20 usinas nucleares e mais 3 grandes projetos hidrelétricos, mas nada indica que irá suspender os investimentos em termelétricas a carvão.

O mesmo acontece com a Índia, que também investe em energia nuclear e a carvão ao mesmo tempo. Aliás, a nova usina termelétrica a carvão da Tata Power Ltd., quando operacional em 2012, será um dos 50 maiores emissores de gases de estufa do mundo e, sozinha, emitirá mais CO2 do que todas as emissões da Tunísia.

Em suma, a geração elétrica a partir do carvão continua crescendo e, com ela, a emissão de CO2. As emissões globais de dióxido de carbono (CO2) derivadas da queima de combustíveis fósseis atingiram em 2006 o recorde de 8,38 bilhões de toneladas, um número 20% maior do que o registrado em 2000. As emissões aumentaram anualmente 3,1% no período, mais do que o dobro da taxa de crescimento dos anos 90.


Mesmo no Brasil, onde o carvão responde por 6,2% da matriz energética, já estão em andamento diversos projetos de novas termelétricas a carvão. E destaque-se que o carvão nacional é um dos piores em termos de teores de cinzas e enxofre. Como em outros países o carvão é uma opção aparentemente barata (para o empreendedor), mas com severos impactos sociais e ambientais, sem falar dos graves danos à saúde pública.

Se não houver vontade e decisão popular de interromper o ciclo do carvão, como fonte dominante de produção de energia elétrica, nada impedirá que as piores previsões de aquecimento global e mudanças climáticas se realizem.

Como em tudo mais, quanto ao CO2 e mudanças climáticas, podemos optar por decisões difíceis agora ou graves conseqüências depois.

Espero que, pelo menos desta vez, não tomemos a decisão de transferir aos nossos descendentes os custos sociais e ambientais de nossa irresponsabilidade.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate

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