No ‘andar de cima’ a vida é uma festa com patrocínio, por Henrique Cortez


Foto do Meio & Mensagem Online

[EcoDebate] Em geral, tento não perder tempo com os eventos e convescotes dos ricos, famosos e celebridades, mas uma matéria publicada pelo Meio & Mensagem Online [Luxo pauta evento eqüestre em São Paulo, de Eduardo Duarte Zanelato, 15/10/2008 – 19:10] realmente me chocou mais do que de costume.

A matéria destaca que, em sua segunda edição, o Athina Onassis International Horse Show virou vitrine para o segmento premium e recebeu aportes milionários de grandes anunciantes.

Mas, antes de fazer as minhas considerações, acho que os(as) leitores(as) devem ler a citada matéria, para avaliarem melhor a questão:

Teve início nesta quarta-feira, 15, a segunda edição da etapa brasileira do Athina Onassis International Horse Show (AOIHS), etapa tupiniquim do Global Champions Tour, competição que reúne os 30 melhores cavaleiros do mundo. O evento recebeu R$ 14 milhões em investimentos, e conta com patrocínio master (cotas a R$ 2,2 milhões) de Bradesco, CSN e Nestlé. Outras 17 cotas foram comercializadas entre patrocínios Silver (R$ 220 mil), Gold (R$ 550 mil) e Platinum (R$ 1,1 milhão, com exclusividade em relação a outras empresas do mesmo segmento). Além de ter diminuído o número de cotas, nesta edição a organização reorganizou a comercialização do AOIHS. “Este ano criamos uma estrutura comercial, que se dividiu entre ISG, Aktuell, DZ Eventos, Wertt e SportCom”, detalha André Beck, diretor-geral da competição.

A diminuição de cotas, de acordo com Beck, foi pensada em prol dos cotistas, que ganham mais visibilidade para suas marcas com a redução. O AOIHS é palco para essas empresas apresentarem produtos voltados ao segmento premium (o chamado público AAA), ao mesmo tempo em que buscam fidelizá-lo e despertar o desejo de consumo na classe média alta, também presente ao evento.

A Nestlé, por exemplo, promoverá diversas marcas. A menina dos olhos da multinacional é o chocolate Nestlé Gold, importado da Suiça e com teor de 70% de cacau. “Uma competição esportiva como essa está totalmente alinhada com nossas estratégias, além de ser um excelente momento para que a Nestlé possa apresentar seus lançamentos em primeira mão aos visitantes”, defende Izael Sinem, diretor de comunicação e serviços de marketing da empresa. As outras submarcas da Nestlé presentes na disputa realizada na Sociedade Hípica Paulista são Nespresso, Sollys (bebida à base de soja) e Sopas Maggi.

Refugo
Originalmente previsto para ocorrer entre 8 e 12 de outubro, o evento foi desmarcado e adiado para a atual data pois um caso de mormo, doença eqüina altamente contagiosa, foi registrada no País. A organização, entretanto, montou um plano de guerra para trazer os animais competidores ao Brasil e recebeu a aprovação do board internacional do campeonato para realizar a etapa por aqui.

Com realização garantida e em virtude da excelente entrega do evento de 2007, o Brasil foi agraciado com a sétima e última etapa do Global Champions Tour e, por isso, deve oferecer premiação recorde de 1,84 milhão de euros, já que sedia a etapa final da competição.

Enquanto o milhão não é dividido entre os atletas, os interessados que passarem pelo AOIHS poderão se esbaldar em ações exclusivas de marcas como Rolex, Hyundai, CN, CN Worldwide, Mapfre Seguros, Amil, Pamcary, Usiminas e Gerdau. A Editora Glamurama marca presença com estande que oferecerá brindes especiais e quitutes refinados para promover os títulos Poder e Joyce Pascowitch.

Em princípio, nada contra estes milionários convescotes, mas realmente é chocante ver como empresas jogam dinheiro fora, com “eventos” completamente irrelevantes para a sociedade.

A maioria das organizações sociais sabe como é desgastante buscar apoio e patrocínio para projetos sociais, culturais e ambientais de interesse e relevância para a sociedade. Na maioria das vezes não vamos além de um ritual de humilhação.

Algumas vezes, as grandes empresas, educadamente, rejeitam as propostas, socialmente relevantes, afirmando que não tem verbas. Agora acredito que seja verdade, porque já estavam comprometidas com patrocínios de ilhas, castelos, festas vip, baladas e eventos esportivos “populares”, como o Athina Onassis International Horse Show.

Cada um gasta o seu dinheiro como quer, mas isto não é necessariamente verdade nas empresas. Quem “sustenta” o Bradesco e a Nestlé, por exemplo, não são os ricos e famosos, mas as pessoas simples e “invisíveis”. É o povão que sustenta a atividade destas empresas, mas não é convidado para a festa, apenas para pagar a conta.

As empresas não possuem caráter, temperamento, atitude, consciência ou responsabilidade. Estas características humanas são decorrentes de seus acionistas e executivos, que por sua vez podem ser os nossos amigos, parentes, vizinhos, etc. Eles são tão responsáveis socialmente quanto a sociedade espera e cobra que eles sejam. Simples assim.

Reclamamos da falta de responsabilidade e compromisso social, mas não exercemos um controle social mais efetivo. As empresas que maquiaram produtos em suas quantidades ou peso continuam no mercado normalmente e algumas continuam líderes de seus segmentos. No entanto, uma empresa que mentiu descaradamente, com o claro e definido objetivo de enganar o consumidor, deveria enfrentar conseqüências legais e mercadológicas sérias. Sabemos que nada aconteceu, salvo o consumidor saber que foi enganado e conformar-se com isto. A mesma lógica perversa aplica-se aos acionistas e executivos ou às próprias empresas, porque, além da tradicional impunidade, não enfrentarão qualquer tipo de rejeição social.

A responsabilidade por esta situação, no entanto, é da sociedade civil, é de todos nós. Devemos ter o compromisso de apenas adquirir bens e serviços das empresas que realmente tenham uma atitude correta e respeitosa com a sociedade e para com o mercado consumidor. Afinal é a sociedade, enquanto mercado consumidor, quem efetivamente sustenta a atividade empresarial.

Voltando ao evento, compreendemos os cuidados e os custos, porque cada um destes cavalos custa, em cuidados e alimentação, mais de R$ 3 mil ao dia. Eles são de raça e merecem, pena que, ao mesmo tempo, 14 milhões de brasileiros vivem (ou sobrevivem) em situação de insegurança alimentar. É como se estes nababos pensassem que os cavalos são de raça, mas os pobres são vira-latas.

Ao que parece, a nova aristocracia do século XXI não aprendeu nada com as lições da revolução francesa.

Em suma, uma festa milionária como esta é uma afronta à maioria da população. Aliás, é mais uma das incontáveis festas patrocinadas para os vips, famosos, celebridades e milionários entediados.

Mas tudo tem solução. A melhor e mais efetiva é que a população trate as empresas com o mesmo respeito que elas efetivamente têm para com sociedade que sustenta a atividade empresarial.

É o que faço. Como muitos outros, digo não às empresas, políticos e cidadãos comuns que possuem atitudes ou comportamentos que ferem os meus princípios, compromissos pessoais e que, principalmente, são socialmente irresponsáveis. Espero que, no futuro, esta seja uma atitude afirmativa mais comum.

No momento em que a sociedade aprender a dizer não às empresas irresponsáveis ou que tenham apenas responsabilidade discursiva podem ter certeza que elas imediatamente serão mais comprometidas com a sociedade ou não irão sobreviver em um mercado competitivo.

Para que os acionistas e executivos façam as suas empresas mais responsáveis, nós, da sociedade civil, devemos fazer a nossa parte aprendendo a dizer não.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate.

[EcoDebate, 17/10/2008]

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