Amazônia ameaçada: Stephanes diz que o Brasil abastecerá 70% do mercado mundial de carnes em dez anos, por Henrique Cortez


Trecho de floresta na Amazônia, em foto de arquivo EcoDebate

[EcoDebate] O ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, em declarações à Agência Brasil, disse ontem (23/10) que projeções feitas por técnicos da pasta indicam que em dez anos o Brasil deve responder por 70% do mercado mundial de carnes. As exportações brasileiras de carnes, em 2007, chegaram a U$ 11,295 bilhões, perdendo apenas para soja e derivados (U$ 11,381 bilhões) como produto de maior importância na balança comercial do agronegócio.

Recentemente o ministro Minc disse que a área autorizada para plantio de cana-de-açúcar será ampliada em 7 milhões de hectares, mas que a Amazônia e o Pantanal Matogrossense estão fora do zoneamento ecológico e econômico para o plantio da cana-de-açúcar e que a expansão não reduzirá a área destinada ao plantio de alimentos.

As declarações dos ministros sempre pecam em um único dado: este imenso aumento da fronteira agropecuária será onde? em que região do país? nas terras de quem?

O governo sonha em aumentar a produção de etanol em até 10 vezes e agora quer “controlar” o mercado mundial de carnes, mas não se preocupa com as conseqüências destes delírios desenvolvimentistas.

Como o território nacional não tem dois andares e não é elástico, é mais do que plausível que esta expansão ocorrerá no Pantanal e na Amazônia.

Aliás, se fizermos a conta de cabeças de gado/hectare atual e expandirmos a área na mesma proporção, para atender 70% do mercado mundial de carnes em dez anos e multiplicar por 10 a produção de etanol, não apenas devastaremos o Cerrado e a Amazônia brasileira, como também precisaremos “invadir” as Guianas.

Já afirmei antes mas, como os delírios se repetem, serei repetitivo na minha argumentação que ainda não foi respondida: os governos, este e todos os anteriores, sempre demonstraram permanente submissão aos interesses do agronegócio de exportação, principalmente os pecuaristas e sojicultores que, aliados aos grandes grupos econômicos e financeiros, apenas percebem os ativos ambientais como recursos econômicos a serem apropriados. O manejo sustentável dos recursos naturais e a agricultura familiar não estão na agenda de compromissos dos grandes interesses econômicos e, por conseqüência, também não estão na agenda do governo.

O governo mantém a opção pelo incentivo à produção e exportação de produtos primários como cláusula pétrea da economia nacional. Como em outras áreas, é a versão século XXI do modelo colonial, no qual as colônias exportavam produtos primários (com pequeno valor agregado) para beneficiamento pelas metrópoles, as quais reexportavam (com grande valor agregado). Foi assim que as colônias financiaram o desenvolvimento dos países colonialistas e ainda é assim que o terceiro mundo financia os países que se dizem desenvolvidos.

Esta pauta colonial de exportação está na origem de tantos desencontros e ambigüidades, tal como a encontrada na produção do biodiesel, cujo programa foi lançado com o argumento de que seria a “redenção” da agricultura familiar no norte e nordeste do País. No entanto, o biodiesel é majoritariamente produzido a partir da soja (70% do total), passando ao largo da agricultura familiar. Mostrou-se como mais um projeto para beneficiar os mesmos de sempre, como sempre.

Precisamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, alumínio primário, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.

Ou questionamos e encontramos um outro modelo de desenvolvimento ou continuaremos no modelo colonial de exportação de produtos primários. É o que fazemos desde o descobrimento (apenas mudamos de senhores ao longo do tempo) e ainda não chegamos lá.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate

* Com informações de Danilo Macedo, Repórter da Agência Brasil.

[EcoDebate, 24/10/2008]

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