Novos estudos dizem que já estamos na zona perigosa dos níveis de dióxido de carbono

Cenários de emissões de CO2 atmosférico, considerando alternativas em que o carvão seja  gradualmente eliminados linearmente entre 2010 e 2030. Fonte Yale University
Cenários de emissões de CO2 atmosférico, considerando alternativas em que o carvão seja gradualmente eliminados linearmente entre 2010 e 2030. Fonte Yale University

Os piores cenários do aquecimento global podem se realizar, porque já estamos entrando na zona perigosa dos níveis de dióxido de carbono (CO2).

Com a aproximação da próxima cúpula mundial do clima, em dezembro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca, quando serão negociadas novas metas de redução após o protocolo de Kyoto, crescem os alertas para que sejam fixadas rigorosas metas de emissão, como única alternativa para evitar o caos climático.

A mais recente pesquisa, publicada na revista Open Atmospheric Science Journal, por um grupo de 10 cientistas dos Estados Unidos, no Reino Unido e França, relata que, para evitarmos as catástrofes climáticas, precisamos reduzir os níveis atmosféricos de dióxido de carbono (CO2) para patamares inferiores aos que já existem hoje. Por Henrique Cortez, do EcoDebate.

Os autores afirmam que, para a manutenção de um planeta semelhante àquele em que civilização foi desenvolvida, um ótimo nível de CO2 seria inferior a 350 ppm – uma mudança dramática em relação à maior parte dos estudos anteriores, que sugerem o nível perigoso de CO2 em 450 ppm ou acima. Os níveis atuais de CO2 atmosférico já estão em 385 partes por milhão (ppm), aumentando em cerca de 2 ppm de cada ano, a partir da queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás) e da queima de florestas.

O estudo já é considerado uma nova referência no tema, porque se baseia em dados mais fiáveis sobre a história climática da Terra e contínuas observações das mudanças, especialmente nas regiões polares. Os autores usaram dados de como a Terra reagiu às mudanças climáticas do passado, junto com os mais recentes padrões de mudanças climáticas, para demonstrar que o CO2 atmosférico já está numa zona perigosa.

Segundo o estudo, o carvão é a maior fonte de CO2 atmosférico e aquele que seria mais prático eliminar. As reservas de petróleo, dependendo da magnitude das reservas ainda não descobertas, tendem a se reduzir e a escassez, por si mesma, já reduziria o impacto ao longo do tempo. O carvão, por outro lado, ainda tem grandes reservas e os autores concluem que “a única forma realista de refrear drasticamente as emissões de CO2 é eliminar progressivamente a utilização do carvão, exceto quando o CO2 é capturado e seqüestrado”.

Em seu modelo de carvão, com emissões progressivamente reduzidas entre 2010 e 2030, o pico de CO2 atmosférico iria 400-425 ppm e, em seguida, iria declinar lentamente. Os autores sustentam que o pico de CO2 nível atingido dependeria da precisão das estimativas de reserva de petróleo e gás e do quanto seria mais difícil e caro extrair petróleo e gás das reservas ainda não exploradas.

Os autores sugerem que o reflorestamento das terras degradadas e a melhoria das práticas agrícolas poderiam reter no solo mais de 50 ppm carbono atmosférico. Eles também excluem o conceito de soluções de “geo-engenharia”, constatando que o preço, da remoção artificial de 50 ppm de CO2 da atmosfera, seria de cerca de US$ 20 trilhões.

Os pesquisadores reconhecem a imensa dificuldade na fixação de metas e na radical redução na utilização do carvão, concluem que é factível, quando comparado com os esforços realizados na II Guerra Mundial e que “o maior perigo é a ignorância continuada e negação, o que poderia tornar trágico e com conseqüências inevitáveis.”

“Há um lado bom para essa conclusão” disse pesquisador James Hansen, da Universidade de Colúmbia, “Seguindo um caminho que leve a uma menor quantidade de CO2, podemos aliviar uma série de problemas, que já pareciam inevitáveis, tais como o aumento de intensidade das tempestades, aumento da desertificação, a perda dos recifes de coral e a perda das geleiras de montanha, que poderiam por em risco o abastecimento de água potável para centenas de milhões de pessoas.”

Não existem, no entanto, quaisquer indicativos reais de que ocorrerá, nos próximos 50 anos, um esforço, ainda que gradual, de redução e substituição do carvão. Ao contrário, nos EUA, China, Europa e mesmo no Brasil, já foram retomados estudos de novas centrais termelétricas a carvão, sem falar de que mais de 50 grandes centrais já estão em construção nos EUA, China e Índia.

A continuidade da utilização do carvão foi discutida no nosso editorial “Termelétricas a carvão continuam reinando absolutas” http://www.ecodebate.com.br/index.php/2008/10/06/termeletricas-a-carvao-continuam-reinando-absolutas-por-henrique-cortez/ , de 06/10/2008, o qual sugerimos como leitura complementar.

É exatamente em razão da descrença, em relação à redução e substituição do carvão, que muitos analistas, desde já, prevêem um novo fracasso em Copenhague 2009, na qual, mais uma vez, a retórica continuará distante da realidade.

Com informações da Yale University e Open Atmospheric Science Journal

Target Atmospheric CO2: Where Should Humanity Aim?
Open Atmospheric Science Journal, Volume 2, 217-231 (2008)
pp.217-231 (15) Authors: James Hansen, Makiko Sato, Pushker Kharecha, David Beerling, Robert Berner, Valerie Masson-Delmotte, Mark Pagani, Maureen Raymo, Dana L. Royer, James C. Zachos

Abstract:

Paleoclimate data show that climate sensitivity is ?3°C for doubled CO2, including only fast feedback processes. Equilibrium sensitivity, including slower surface albedo feedbacks, is ?6°C for doubled CO2 for the range of climate states between glacial conditions and ice-free Antarctica. Decreasing CO2 was the main cause of a cooling trend that began 50 million years ago, the planet being nearly ice-free until CO2 fell to 450 ± 100 ppm; barring prompt policy changes, that critical level will be passed, in the opposite direction, within decades. If humanity wishes to preserve a planet similar to that on which civilization developed and to which life on Earth is adapted, paleoclimate evidence and ongoing climate change suggest that CO2 will need to be reduced from its current 385 ppm to at most 350 ppm, but likely less than that. The largest uncertainty in the target arises from possible changes of non-CO2 forcings. An initial 350 ppm CO2 target may be achievable by phasing out coal use except where CO2 is captured and adopting agricultural and forestry practices that sequester carbon. If the present overshoot of this target CO2 is not brief, there is a possibility of seeding irreversible catastrophic effects.

[EcoDebate, 10/11/2008]

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