Aquecimento global aumentará a emissão de carbono a partir de turfeiras

[Global warming predicted to hasten carbon release from peat bogs, by Henrique Cortez]

Nature Geoscience, November 2008 - Vol 1 No 11
Nature Geoscience, November 2008 – Vol 1 No 11

Bilhões de toneladas de carbono, “estocado” nas turfeiras* (vide nota explicativa) de todo o planeta, poderiam ser liberadas na atmosfera, nas próximas décadas, como conseqüência do aquecimento global, segundo um novo estudo, que analisa a interação entre turfeiras, lençóis freáticos e as mudanças climáticas.

O estudo foi realizado por cientistas da Universidade de Harvard, Worcester State College e Japan Agency for Marine-Earth Science and Technology, em artigo publicado na atual edição da revista Nature Geoscience , November 2008 – Vol 1 No 11. Por Henrique Cortez*, do EcoDebate.

“Nossa modelagem sugere que temperaturas mais elevadas podem provocar uma redução substancial dos lençóis freáticos, secando, também, as turfeiras e interferindo na sua decomposição”, diz Paul R. Moorcroft, professor de biologia evolutiva da Harvard’s Faculty of Arts and Sciences. “Durante vários séculos, cerca de 40 % de carbono pode ter sido emitido das turfeiras superficial, enquanto as perdas totais poderiam ser de 86% em turfeiras de profundidade.”

Normalmente encontradas em latitudes setentrionais, as turfeiras são áreas em que o frio e a umidade ambiente preserva a matéria orgânica, evitando que ela se decadente. Este novo trabalho mostra como a estabilidade das turfeiras poderia ser rompida pelo aquecimento da terra, que tem afetado desproporcionalmente áreas de maiores latitudes, onde as turfeiras são geralmente encontradas.

O estudo avalia que, nas turfeiras em todo o mundo, estão estocadas de 200 a 450 bilhões de toneladas métricas de carbono captado. Este valor é equivalente a 65 anos das atuais emissões globais de carbono, decorrente da queima de combustíveis fósseis.

“As turfeiras contêm grandes reservas de carbono”, diz Moorcroft. “Elas provavelmente vão responder ao aquecimento estimado neste século, perdendo grandes quantidades de carbono durante os períodos secos.”

Moorcroft e seus colegas simularam as respostas de duas turfeiras, no norte de Manitoba, aumentando a temperatura em 4°C e 7,2° C.

“Modelagens anteriores consideraram a decomposição em turfeiras como que em um solo convencional”, diz Moorcroft. “A nossa (experiência) é a primeira simulação realista, a considerar a interação entre a dinâmica do lençol freático, a temperatura da turfa e a sua acumulação”.

Moorcroft tem planos para continuar a investigação, alargando o seu grupo de análise da água e turfeiras para escalas globais.

Este estudo soma-se, a diversos outros, que alertam para a liberação de imensas quantidades de carbono e metano estocados pela natureza, em razão do aquecimento global.

Seria um processo agressivo de emissão de gases estufa, com grande potencial de realimentação do aquecimento global.

Este processo também já é visível em áreas de permafrost (solos permanentemente congelados) que também possuem estocados volumes gigantescos de carbono e metano.

* Nota explicativa do EcoDebate: A turfa é um material de origem vegetal, parcialmente decomposto, encontrado em camadas, geralmente em regiões pantanosas e também sobre montanhas (turfa de altitude). É formada principalmente por Sphagnum (esfagno, grupo de musgos) e Hypnum, mas também de juncos, árvores, etc. Sob condições geológicas adequadas, transformam-se em carvão, através de emanações de metano vindo das profundezas e da preservação em ambiente anóxico. É utilizada como combustível para aquecimento doméstico.

Turfeira é um tipo de solo, feita de turfa (carvão vegetal). Fósseis são relativamente comuns em turfeiras. É formada pela deposição e decomposição de filídeos de esfagnos. São materiais orgânicos depositados sob o solo formando os organossolos.

Estes solos apresentam alta concentração de carbono nos 40 cm superficiais quando nao estão em contato lítico. São comumente encontrados em áreas sedimentares de varzeas, o qual dificulta a decomposição do material orgânico em função da saturação por água. Além da água as baixas temperaturas, acidez e toxinas orgânicas, influenciam na decomposição e consequentemente na formação das turfas. Fonte da informação: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O acesso ao artigo “High sensitivity of peat decomposition to climate change through water-table feedback” é restrito a assinantes da revista Nature Geoscience.

High sensitivity of peat decomposition to climate change through water-table feedback
Nature Geoscience 1, 763 – 766 (2008)
Published online: 12 October 2008 | doi:10.1038/ngeo331
Subject Categories: Biogeochemistry | Climate science | Hydrology, hydrogeology and limnology
Takeshi Ise, Allison L. Dunn, Steven C. Wofsy & Paul R. Moorcroft
doi:10.1038/ngeo331

The water table interacts with soil organic carbon in northern peatlands that have historically functioned as a carbon sink. Simulations with a coupled physical–biogeochemical soil model with continuously updated peat depths show that the feedback between the water table and peat depth increases the sensitivity of peat decomposition to temperature, and intensifies the loss of soil organic carbon in a changing climate.

Correspondence to: Takeshi Ise1 e-mail: ise@jamstec.go.jp

Nota complementar do EcoDebate: Para maiores informações sobre este processo de aquecimento e liberação de estoques de carbono, sugerimos que acessem as matérias abaixo indicadas.

Níveis de metano na atmosfera começam a aumentar novamente, depois de uma década de estabilidade

(The methane time bomb) Aquecimento global faz oceano Ártico liberar metano

Descongelamento do permafrost pode liberar dobro da quantidade de carbono na atmosfera

As mudanças climáticas podem liberar enormes estoques de gases estufa dos solos árticos

Estudo constata que o rápido recuo do gelo ártico ameaça os solos permanentemente congelados (permafrost)

* Com informações da Harvard University.

[EcoDebate, 11/11/2008]

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