Sucesso internacional da tequila desencadeia problemas sociais e ambientais no México, por Henrique Cortez

Monocultura do agave, foto da Dra. Sarah Bowen
Monocultura do agave, foto da Dra. Sarah Bowen

Os países emergentes sempre comemoram as exportações de seus produtos agrícolas e derivados, importantes para a segurança de suas reservas, mas, ao mesmo tempo, sempre omitem os impactos sociais e ambientais desta produção.

O Brasil é um caso amplamente conhecido pelos impactos do agronegócio exportador e suas monoculturas. Agora ficam visíveis os impactos, no México, causados pelo sucesso internacional e conseqüente exportação crescente da tequila.

Um estudo [Geographical indications, terroir, and socioeconomic and ecological sustainability: The case of tequila] da North Carolina State University, mostra que o aumento da popularidade da tequila, nos últimos 15 anos, pode ter sido uma “benção” para a indústria, mas está causando um grande número de problemas sociais e ambientais na região do México, onde a bebida é produzida..

Tequila é destilada a partir da planta agave azul e, de acordo com a legislação mexicana, só pode ser produzida em uma área específica, englobando o estado de Jalisco e partes de outros quatro estados mexicanos. Este tipo de distinção, conhecida como uma “indicação geográfica” (GI), transmite a origem geográfica de um produto, bem como a sua identidade cultural e histórica.

A tequila e outros produtos com indicações geográficas, como o champanhe e vinhos, estão protegidos por um complexo conjunto de organizações, convenções e regulamentos mundiais que definem a produção de um determinado lugar, tornando impossível que sejam terceirizado ou “clonados”.

Mas o novo estudo, com a coautoria da Dra. Sarah Bowen, revela que o GI da tequila não é nem socialmente nem ecologicamente sustentável. Esta é uma avaliação útil para outras regiões da Ásia e das Américas que estão tentando criar GIs para seus produtos.

Trabalhador prepara o agave para processamento, foto da Dra. Sarah Bowen
Trabalhador prepara o agave para processamento, foto da Dra. Sarah Bowen

A indústria da tequila se expandiu consideravelmente desde o início da década de 1990, mais que duplicando a sua produção entre 1995 e 2005. Mas uma série de fatores, incluindo as infestações por pragas e doenças e o fato de que uma planta de agave azul precisa de 6 anos para evoluir do plantio à colheita, têm contribuído significativamente para a instabilidade no fornecimento de agave.

Com o argumento de problemas de fornecimento, juntamente com um aumento da procura, as indústrias começaram a plantar as suas próprias culturas de agave, reduzindo a sua dependência de agricultores independentes. Isto também significa que o agave está, agora, sendo produzido em áreas dentro da GI da tequila, mas que não tinham sido previamente utilizadas para o cultivo do agave.

As novas áreas, plantadas como monoculturas intensivas e extensivas, criaram alterações têm contribuído para a perda de práticas agrícolas tradicionais, tais como a prática da poda do agave para controle de pragas. Em vez disso, a indústria optou por um aumento significativo na utilização de pesticidas e outros produtos químicos.

“Muitas destas alterações estão marginalizando os agricultores e os trabalhadores”, diz Bowen, “minando a base social da região, que depende do agave e da indústria de tequila.” Além disso, o estudo mostra que as normas que definem a produção de tequila não se preocupam em preservar os métodos tradicionais de produção. Como resultado, os recursos sociais e ambientais na Amatitán-Tequila Valley, onde a produção de tequila se originou mais de 400 anos atrás, estão sob ameaça.

A concentração da produção pela monocultura controla da pela indústria está desestabilizando a agricultura familiar, tradicionalmente responsável pela produção do agave.

O estudo é importante porque proporciona um caso de estudo de como a falta de sustentabilidade socioeconômica e ambiental pode criar um ciclo vicioso, em que as questões sociais exacerbam os problemas ambientais e vice-versa. Mas também dá algumas orientações para avançar. Por exemplo, diz Bowen, se um país ou região quiser fazer uma GI com real contribuição para o desenvolvimento rural, com efeitos ambientais de longo prazo, deve se comprometer para que a produção sustentável adote práticas devem ser incorporadas no quadro legal da GI si.

A pesquisa foi coordenada pela Dra. Bowen, da North Carolina State University e a Dra. Ana Valenzuela Zapata, da Universidade de Guadalajara.

O estudo, “Geographical indications, terroir, and socioeconomic and ecological sustainability: The case of tequila,” foi publicado na edição de janeiro do Journal of Rural Studies e está disponível para livre acesso e download. Para acessar o artigo clique aqui.

Abstract

Geographical indications, terroir, and socioeconomic and ecological sustainability: The case of tequila

Authors: Sarah Bowen, North Carolina State University; Ana Valenzuela Zapata, University of Guadalajara-CUCIENEGA
Published: January 2009, in Journal of Rural Studies

Abstract: In this paper, we use the case of tequila to examine the potential for geographical indications (GIs) to contribute to socioeconomic and environmental sustainability. GIs are place-based names (e.g., Champagne, Roquefort) that convey the geographical origin, as well as the cultural and historical identity, of agricultural products. The GI for tequila was established by the Mexican government in 1974, making it the oldest GI, and one of the best-recognized, outside of Europe. Here, we examine the social, economic, and ecological impacts that the agave–tequila industry has had on one community in tequila’s region of origin, the town of Amatitán. We show that persistent cycles of surplus and shortage of agave and changing production relations in the agave–tequila industry have led to: (1) economic insecurity among farm households;(2) increased use of chemical inputs, at the expense of more labor-intensive cultivation practices; and (3) overall declines in fertilizer application, especially during periods in which there is a surplus of agave. We argue that the negative effects of the agave–tequila industry on the local economy and environment are due to the failure of the GI for tequila to value the ways in which the terroir of tequila’s region of origin have contributed to its specific properties. We conclude by using this case to discuss more generally the relationship between the protection of place-based products (known collectively as geographical indications) and social and environmental sustainability.

[Por Henrique Cortez, do EcoDebate, com informações de Matt Shipman, da North Carolina State University , 13/01/2009]

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