Relatório alerta para a proximidade de uma severa crise hídrica, por Henrique Cortez

seca

[EcoDebate] A expansão da população mundial, as dietas alimentares e a demanda de água para os processo industriais está criando uma gigantesca “pegada da água“, que pode originar uma crise sem precedentes.

As advertências foram publicadas em um relatório do Instituto do Pacífico, na Califórnia (Pacific Institute in Califórnia), tem como foco central o limite de demanda, um parâmetro relativo ao ponto em que o mundo tem de enfrentar um limite natural para algo assim tratado como infinito.

A demanda humana, através da agricultura, indústria e outros usos, já utiliza cerca de metade da água doce renovável e acessível. Mas, mesmo nesses níveis, o acesso à água ainda é insuficiente, com bilhões de pessoas vivendo sem os mais elementares serviços de água.

Um elemento-chave para enfrentar a crise, dizem os especialistas, está em aumentar a compreensão pública da quantidade de água incorporada em alimentos, bens e serviços utilizados cotidianamente (a água virtual).

Um copo de suco de laranja, por exemplo, necessita de 850 litros de água doce para ser produzido, de acordo com o Instituto Pacífico e pelo Water Footprint Network, enquanto a fabricação de um quilo de microchips, exigindo constante limpeza para eliminar substâncias químicas, tem cerca de 16.000 litros. Um hambúrguer contém, em média, 2.400 litros de água doce, em função da origem e do tipo de carne utilizada.

A água é devolvida, sob várias formas, para o sistema, embora não necessariamente em um local ou em uma qualidade em que pode ser efetivamente utilizada.

Há preocupações de que a água será cada vez mais a causa do aumento de violência e guerras.

Dan Smith, o secretário-geral da organização International Alert, declarou: “A água é uma condição básica para a vida. A disponibilidade e a qualidade são fundamentais para todas as sociedades, especialmente em relação à agricultura e à saúde. Há lugares, tais como na África Ocidental, hoje, o sistema fluvial Ganges-Bramaputra, no Nepal, Bangladesh e Índia, que, no prazo de dez anos, quando a demanda, seus usos e mudanças na disponibilidade, podem gerar um risco significativo de conflitos violentos. A boa gestão da água faz parte da paz. ”

David Zhang, geógrafo da Universidade de Hong Kong, produziu um estudo publicado na revista Science, analisando 8 mil conflitos armados ao longo de 500 anos, concluindo que a escassez da água tinha desempenhado um papel muito mais importante como catalisador do que anteriormente suposto.

Estamos em alerta, porque isso nos dá a indicação de que a escassez dos recursos é a principal causa da guerra“, disse David Zhang ao jornal The Times. “O ser humano vai definitivamente ter conflitos por isso.”

Embora, em teoria, as fontes renováveis de água sejam devolvidas para o ecossistema e a sua utilização possa continuar indefinidamente, diz o Dr. Gleick que mudanças na forma como água foi explorada e como a sua qualidade foi degradada significaria que os métodos de tratamento se tornariam cada vez mais caros.

Muitas regiões do mundo, tais como a África Ocidental e o Norte/Noroeste da China, já ultrapassaram o limite da disponibilidade hídrica, utilizando mais água do que o sistema hidrológico consegue repor.

Uma parte significativa do problema é o enorme, e muitas vezes profundamente ineficiente, uso de água pela indústria e agricultura.

Cálculos das Nações Unidas indicam que mais de um terço da população do mundo já sofre com a escassez de água e deverá crescer em 40%, em relação à atual demanda. Nesta situação, duas de cada três pessoas poderiam estar vivendo sob condições de “estresse hídrico”.

O relatório World’s Water é particularmente forte sobre o estado da utilização da água e da poluição na China, onde a expansão econômica tem sobrecarregado os recursos de água doce, ameaçando a estabilidade social e econômica de médio prazo.

Quando os recursos são limitados ou água está contaminada, ou quando a atividade econômica é livre ou insuficientemente regulamentada, podem surgir sérios problemas sociais“, escreveu o Dr. Gleick, “e na China, esses fatores vêm juntos, o que conduz a mais grave e complexos desafios na gestão da água do que em praticamente qualquer outro lugar do planeta. ”

Gota a gota
– Os cálculos da “pegada de água” ainda são apenas brutos. Diferem em todo o mundo e dependem do clima, tipos de solo, métodos de irrigação e culturas agrícolas. O mesmo se aplica às diferentes carnes, cuja pegada depende do que os animais se alimentam e da relativa “sede” das culturas agrícolas utilizadas para alimentá-los

– A quantidade de água necessária para produzir um único litro de refrigerante pode ser apenas três ou quatro litros, mas grandes quantidades são utilizados para produzir o açúcar e o xarope de milho. Em outro exemplo, um quilograma de papel exige 125 litros de água no seu processo de fabricação, mas isto não considera a água consumida pelas 50 árvores necessárias para produção da celulose.

Vejam, abaixo, no original em inglês, o release do Pacific Institute in California

Peak Water, China’s Water Crisis, Climate Change Impacts among Pressing Topics Examined by Pacific Institute

New Work Addresses State of “The World’s Water”

(Oakland, Calif.)–Are we running out of water?

“Is there such a thing as ‘peak water’? There is a vast amount of water on the planet—but we are facing a crisis of running out of sustainably managed water,” said Dr. Peter Gleick, president of the Pacific Institute. “Humans already appropriate over 50% of all renewable and accessible freshwater flows, and yet billions still lack the most basic water services.”

Gleick, a MacArthur Fellow and one of the world’s leading authorities on water, has for the past decade coauthored and edited the biennial series The World’s Water, examining global issues around use and misuse of our freshwater resources. The much anticipated sixth volume from the Pacific Institute, The World’s Water 2008-2009, addresses topics from “peak water” to climate change impacts, including a chart on “The Water Content of Things” —from potato chips to microchips—an eye-opener in terms of our own water footprints. (This chart, with selected book chapters and data tables, is available online at www.worldwater.org.)

Key to the discussion of water today is the concept of “peak water,” which Gleick and chapter co-author Meena Palaniappan redefine as “peak ecological water”—the critical point already reached in many areas, where we overtax the planet’s ability to absorb the consequences of our water use. A prime example is the water crisis in China, where water resources are over-allocated, inefficiently used, and grossly polluted by human and industrial wastes, with 300 million people lacking access to safe drinking water.

“China has developed a set of water quality and quantity problems as severe as any on the planet,” said Gleick. “Rivers and lakes are dead and dying, groundwater aquifers are over-pumped, uncounted species of aquatic life have been driven to extinction, and direct adverse impacts on both human and ecosystem health are widespread and growing.”

The World’s Water 2008-2009 explores these issues, including an update on China’s Three Gorges Dam, the largest integrated water project in history, and the problems it faces as it nears completion after a decade of controversy. Additional coauthors Heather Cooley, Michael Cohen, Mari Morikawa, and Jason Morrison weigh in on business reporting on water, water management in a changing climate, the progress toward the Millennium Development Goals, urban water use efficiencies, the Salton Sea, and the Tampa Desalination Plant. With 20 data tables on global water situations and the newly updated Water Conflict Chronology, the volume brings the urgency of the issues around sustainable water management to the fore.

The World’s Water 2008-2009 can be ordered online through Island Press (www.islandpress.org) or by calling 800.621.2736. Visit www.worldwater.org for more information and to access data tables and select content from the entire series.

For additional information and downloadable reports on a wide range of water issues, visit the Pacific Institute website at www.pacinst.org. Based in Oakland, California, the Pacific Institute is a nonpartisan research institute that works to create a healthier planet and sustainable communities. Through interdisciplinary research and partnering with stakeholders, the Institute produces solutions that advance environmental protection, economic development, and social equity—in California, nationally, and internationally.

[Matéria de Henrique Cortez, do EcoDebate, 24/01/2009]

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