Estudo relaciona medicamentos vendidos na Suécia com sérios danos ambientais na Índia, por Henrique Cortez

[EcoDebate] Muitas das substâncias mais comuns nos nossos medicamentos são fabricados na Índia e na China. Algumas dessas fábricas libertam grandes quantidades de antibióticos e outras substâncias farmacêuticas para o ambiente. Há um risco óbvio destas contaminações estimularem o desenvolvimento de bactérias mais resistentes.

Pesquisa realizada pela Academia Sahlgrenska, da Universidade de Gothenburg, na Suécia, mostra que a Suécia é um grande consumidor de substâncias farmacêuticas de fábricas que não conseguem tratar adequadamente as suas águas residuais.

A pesquisa informa que é difícil descobrir onde as substâncias farmacêuticas são fabricadas e qual a dimensão da contaminação, tornando impossível que os consumidores possam, de alguma forma, evitar esse dano ambiental.

Estes resultados foram publicados na revista médica Regulatory Toxicology and Pharmacology e foram destacados em uma reportagem na revista Nature [India’s drug problem]. Na semana passada, a investigação do grupo sueco foi manchete no New York Times, Washington Post e o Times da Índia.

A água residual da indústria farmacêutica é altamente tóxica

Os pesquisadores avaliaram a zona industrial perto de Hyderabad, na Índia, um importante centro para a produção de substâncias farmacêuticas. Nesta região foram coletadas amostras da água, em uma instalação de tratamento de águas residuais, que trata as emissões de cerca de 90 fábricas farmacêuticas.

A água “tratada” continha níveis excepcionalmente elevados de diversas substâncias farmacêuticas, incluindo vários antibióticos de largo espectro. Foi estimado que a estação de tratamento libera para o ambiente o equivalente a 45 kg de antibiótico ciprofloxacina em um dia, o que equivale a cinco vezes o consumo diário da Suécia, dizem os pesquisadores.

Esses níveis elevados de antibióticos na água são um motivo para alarme, dado que existe um grande risco do desenvolvimento de bactérias resistentes, uma questão de interesse global. Isto pode levar a que os antibióticos, hoje eficazes, venham a perder sua eficácia terapêutica no futuro.

Além disso, o ambiente é afetado localmente pela poluição.

Em outro estudo realizado pelos mesmos pesquisadores, publicado na Environmental Toxicology and Chemistry, demonstra que o efluente inibe, por exemplo, o desenvolvimento de girinos.

As substâncias fabricadas em Hyderabad são vendidas na Suécia

Onde uma substância ativa de um medicamento é fabricada não é informação pública, mas a agencia sueca de produtos médicos (Medical Products Agency), para fins de pesquisa, pode liberar a informações. Com base nisto, os pesquisadores analisaram os dados da agência para 242 produtos no mercado sueco que continham qualquer um dos nove substâncias específicas *. Eles descobriram que 123 produtos continham substâncias provenientes da Índia e em 74 dos produtos (31%) a substância ativa foi fabricada por uma das indústrias que enviam as suas águas residuais para a estação de tratamento de Hyderabad, onde foi realizado o estudo.

“A análise mostra claramente que um grande número de medicamentos no mercado sueco é feito pelos fabricantes, que enviam os seus efluentes para uma instalação de tratamento que não trata a água de forma satisfatória”, disse Joakim Larsson, um dos pesquisadores.

“A Suécia, que tem fama de ter algumas das mais rigorosas legislações ambientais do mundo, tal como outros países ocidentais, por isso, assume uma responsabilidade partilhada para os problemas ambientais que do que consumimos, como os que medicamentos causam na Índia, por exemplo”, disse Larsson.

Mas é impossível para o consumidor individual saber se a substância em um medicamento que ele ou ela usam pode ter causado problemas ambientais em razão do processo industrial.

“Por isso, é importante que a cadeia de produção seja transparente. Se os consumidores têm a oportunidade de escolher os produtos farmacêuticos que sejam produzidos de forma ecológica, isso poderia incentivar os fabricantes a se tornarem mais ambientalmente responsáveis”, disse Larsson.

* As substâncias selecionadas eram cetirizine, ciprofloxacin, citalopram, levofloxacin, losartan, metoprolol, norfloxacin, ofloxacin and ranitidine

A pesquisa ‘Transparency throughout the production chain – a way to reduce pollution from the manufacturing of pharmaceuticals?‘, publicada na Environmental Toxicology and Chemistry, apenas está disponível para assinantes ou mediante pagamento avulso. Abaixo transcrevemos o abstract:

Transparency throughout the production chain – a way to reduce pollution from the manufacturing of pharmaceuticals?

Abstract

Recent findings have shown that wastewater from bulk drug production can be a source of very high environmental concentrations of drugs in certain locations. The release of active ingredients is often not specifically regulated, and thus rapid initiatives from the industries themselves are warranted. Possible ways to stimulate action include changes in local and international regulations, including the implementation of appropriate environmental standards within existing industry guidelines as well as demands from prescribers and consumers of medicines. The lack of readily available information regarding the origin of drugs and the environmental impact of the production, however, prevents consumers from making informed decisions. Here, we investigated the origin of active pharmaceutical ingredients (APIs) in 242 selected products on the Swedish market. By comparing registers from Sweden and India we found that the APIs in 71 products (31%) originated from Indian manufacturers sending their waste to a treatment plant where unprecedented amount of environmental pollution with broad spectrum antibiotics and other drugs recently has been documented. We propose that increased transparency throughout the production chain would be one of several important steps to reducing pollution from the manufacturing of drugs.

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[Por Henrique Cortez, do EcoDebate, com informações de Joakim Larsson, da University of Gothenburg]

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