Poluição do tráfego é prejudicial às coronárias, contribuindo para as doenças cardiacas, por Henrique Cortez

poluição do ar em São Paulo

[EcoDebate] Um estudo recentemente realizado na Alemanha concluiu que as pessoas que viviam perto de tráfego tiveram maior chance de desenvolver aterosclerose (endurecimento das artérias), que por sua vez aumenta o risco de doença cardíaca.

O estudo, liderado pela Dra. Barbara Hoffman, que também dirige a unidade de epidemiologia ambiental da Universidade de Duisburg-Essen, usou uma tecnologia chamada “elétron-feixe de tomografia computadorizada” para medir o acúmulo de cálcio nas artérias. Com isto foi possível avaliar os efeitos de longo prazo da exposição residencial ao tráfego intenso sobre o coração.

Usando as pessoas que viviam mais de 200m de distância de vias com grande tráfego, como ponto de referência, os riscos relativos de desenvolvimento de calcificação arterial coronária para as pessoas que vivem diferentes distâncias de tráfego pesado foram as seguintes:

* Dentro de 50m de tráfego intenso – risco 63% maior
* Entre 51M e 100m – risco 34% maior
* Entre 100m e 200m – risco 8% maior

“Viver a 100 metros de uma estrada importante, em comparação com as pessoas que vivem mais longe, em termos de calcificação coronariana, equivale a uma diferença semelhante a seis meses de envelhecimento”, disse a Dra. Hoffman. O estudo foi publicado no Circulation, revista da American Heart Association.

A relação entre a poluição atmosférica e as doenças cardíacas não é algo particularmente novo. Já existem muitos estudos e pesquisas que apresentam um consistente conjunto de dados relacionando as partículas de poluição atmosférica com doenças cardiovasculares e morte prematura.

A American Heart Association, também, reconhece esta relação. Em 2004, depois de rever as provas científicas disponíveis, um painel de especialistas concluiu que a exposição, em curto prazo, ao aumento dos níveis de pequenas partículas poluentes no ar, incluindo as emissões provenientes dos veículos a motor, contribui significativamente para aumento da mortalidade cardiovascular aguda. Os especialistas também concluíram que a exposição continuada à poluição atmosférica pode reduzir a expectativa de vida em até alguns anos.

Um estudo específico, que foi publicado na mesma revista no ano passado, realizado por pesquisadores da Harvard School of Public Health e da Harvard Medical School, relatou que partículas microscópicas de ar poluído podem afetar negativamente a capacidade do coração em pessoas com doença arterial coronariana grave.

Na outra ponta do problema, um estudo [Fine-Particulate Air Pollution and Life Expectancy in the United States], publicado no New England Journal of Medicine, concluiu que os norte-americanos estão respirando melhor e, com isto, vivendo mais.

O estudo avaliou as alterações na expectativa de vida em relação às mudanças na quantidade de partículas finas, a poluição do ar nos Estados Unidos, durante duas décadas. Até ao ano de 2000, os americanos estavam vivendo uma média de 2,7 anos mais do que em 1980. Deste aumento, o estudo estima que cinco meses estão associados às melhorias na qualidade do ar. [para maiores informações sobre este estudo acesse “Estudo associa o aumento da expectativa de vida à redução da poluição atmosférica“]

A questão dos impactos da poluição na saúde pública é algo que está além da vontade de qualquer pessoa. O que as pessoas podem fazer? As grandes cidades, com grande tráfego, continuarão poluídas e, potencialmente, com o aumento do numero de veículos certamente ficarão ainda mais poluídas.

As pessoas podem tomar alguns cuidados individuais, tais como manter a pressão arterial sob controle, manter os controle dos níveis de colesterol no sangue, praticarem exercícios regularmente e abolirem o tabagismo.

No mais, no que se refere à poluição atmosférica, nada podem fazer. Ninguém reside às margens de uma via de trafego intenso simplesmente porque querem.

A poluição é um problema de saúde pública que só pode ser enfrentado com políticas públicas.

O estudo “Particulate Air Pollution as a Risk Factor for ST-Segment Depression in Patients With Coronary Artery Disease“, Kai Jen Chuang, Brent A. Coull, Antonella Zanobetti, Helen Suh, Joel Schwartz, Peter H. Stone, Augusto Litonjua, Frank E. Speizer, and Diane R. Gold. . Artery Disease Circulation, Sep 2008 DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.108.765669, apenas está disponível para assinantes.

Abaixo transcrevemos o abstract. Também indicamos importantes referências sobre o assunto e outras matérias já publicadas pelo EcoDebate.

Response to Letter Regarding Article, “Residential Exposure to Traffic Is Associated With Coronary Atherosclerosis”

Barbara Hoffmann, MD, MPH; Susanne Moebus, PhD, MPH; Nils Lehmann, PhD; Karl-Heinz Jöckel, PhD
Institute for Medical Informatics, Biometry and Epidemiology, University Hospital, University of Duisburg-Essen, Essen, Germany

Stefan Möhlenkamp, MD; Axel Schmermund, MD; Raimund Erbel, MD
West German Heart Center Essen, University Hospital, University of Duisburg-Essen, Essen, Germany

Andreas Stang, MD, MPH
Institute of Medical Epidemiology, Biometry and Informatics, Medical Faculty, Martin-Luther-University of Halle-Wittenberg, Halle, Germany

Nico Dragano, PhD
Institute of Medical Sociology, Medical Faculty, University of Düsseldorf, Düsseldorf, Germany

Michael Memmesheimer, PhD
Rhenish Institute for Environmental Research, University of Cologne, Cologne, Germany

Klaus Mann, MD
Department of Endocrinology, University Hospital, University of Duisburg-Essen, Essen, Germany

We thank Dr Brook for his insightful comments and agree with his opinion that short-term effects are important mechanisms of particulate matter (PM) –related health effects. However, we do not agree that our study results represent a “minor” proatherosclerotic effect.1 The 7% higher coronary calcification score is related to a reduction in the distance between the residence and a major road by half. Therefore, it is not comparable to a “PM estimate” because we did not measure air pollutant concentrations in relation to proximity to roadways. Furthermore, a comparatively small exposure contrast of 3.91 µg/m3 PM2.5 is associated with an, albeit nonsignificant, 17% higher coronary calcification score (Table 2). This corresponds to {approx}1 year of higher vascular age in our study population. Moreover, nondifferential exposure misclassification is larger in long-term than in short-term studies. This leads to a more pronounced underestimation of the true effect size in long-term studies than in short-term studies. The observed association is therefore a conservative estimate of the true association.

If we assume a causal relationship, we can calculate the number of attributable cases to estimate the public health relevance of our results. The odds for being above the 75th percentile of the age- and gender-specific coronary calcification distribution, the clinically used cut point for risk stratification that is highly predictive of coronary events,2 was elevated by 1.64, 1.34, and 1.08 for living within 50, 51 to 100, and 101 to 200 m of a major road, respectively, compared with >200 m away. If we consider that {approx}500 000 inhabitants 45 to 74 years of age in our study region, of which {approx}15% live ?200 m of a major road, and assume a mean odds ratio (OR) of 1.2, the population attributable risk (PAR), calculated as PAR=P(OR–1)/[1+P(OR–1)], where P is the prevalence of the exposed, is 3%. In our study region, where 125 000 inhabitants are in the top quarter of the coronary calcification distribution, this amounts to 3750 cases of high coronary calcification resulting from high residential traffic exposure.

Referências

1. Hoffmann B, Moebus S, Möhlenkamp S, Stang A, Lehmann N, Dragano N, Schmermund A, Memmesheimer M, Mann K, Erbel R, Jöckel KH, for the Heinz Nixdorf Recall Study Investigative Group. Residential exposure to traffic is associated with coronary atherosclerosis. Circulation. 2007; 116: 489–496.[Abstract/Free Full Text]

2. Expert Panel on Detection, Evaluation, and Treatment of High Blood Cholesterol in Adults. Executive Summary of the third report of the National Cholesterol Education Program (NCEP) Expert Panel on Detection, Evaluation, and Treatment of High Blood Cholesterol in Adults (Adult Treatment Panel III). JAMA. 2001; 285: 2486–2497.[Free Full Text]

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[Por Henrique Cortez, do EcoDebate, 09/02/2009]

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