Agroquímicos: O veneno à nossa mesa, por Henrique Cortez

agrotóxicos

[Ecodebate] Nos últimos anos cresce o debate da agricultura orgânica versus a agricultura “tradicional”, aqui entendida como a que utiliza agroquímicos visando aumento de produção e produtividade.

Esta é uma discussão importante que se perdeu em argumentos binários, do tipo ‘os orgânicos são mais caros mas são mais saudáveis’ ou que a agricultura orgânica não possui produtividade suficiente para alimentar o planeta.

A agricultura “tradicional” se orgulha de produzir alimentos mais do que suficiente para alimentar o planeta e a indústria química se orgulha de ter desenvolvido os insumos utilizados para isto.

A agricultura orgânica se orgulha de ser ambientalmente mais amigável e que, eventualmente, seja mais saudável.

Os dois lados podem até estar certos mas, na minha percepção, a questão central não é essa.

Devemos nos perguntar qual é o real custo social, ambiental e de saúde desta grande produção ‘aditivada’ com agroquímicos. Quem arca com as consequências e quem realmente paga por isto?

Não pretendo discutir o manejo do solo, a sua utilização intensiva e extensiva, a ponto de que o solo precisa de permanente aplicação de fertilizantes ou de que a produção animal beire o horror da exploração desumana.

Prefiro falar do nosso longo e lento envenenamento diário. Prefiro por em discussão a comida que nos mata.

Há algum tempo assisti a um telejornal no qual um produtor de morangos, do interior de SP, declarou (devidamente protegido pelo anonimato) que não consumia o morango que produzia por causa dos agrotóxicos. Deste dia em diante passei a estar mais atento ao veneno na minha mesa.

Para colocar o tema em discussão, nem será preciso nada mais do que fazer um rápido e pequeno balanço do que já publicamos.

Uma pesquisa da Fiocruz, em Pernambuco, identificou a presença de parasitos em 96,6% das amostras de alface coletadas em supermercados e feiras livres da cidade. E isto nas alfaces cultivadas pelo método tradicional, o orgânico e hidropônico.

No Japão, em setembro/2009, o arroz importado da China contaminado com pesticida e fungo levou ministro da agricultura a renunciar. Neste lamentável caso de ganância irresponsável (mais uma dentre tantas), o arroz foi importando para uso industrial, na produção de colas, mas funcionários da Mikasa Foods desviou o lote para produção de comida contaminada por pesticida e fungo foi servida em escolas, restaurantes, hospitais, lojas e lanchonetes.

O imenso volume de herbicidas aplicados no Brasil contaminam os solos, os mananciais e até mesmo o aqüífero Guarani. A contaminação dos mananciais e aqüíferos também chegará até nos pela água que bebemos e pelos produtos agrícolas irrigados com a água contaminada.

Um estudo, do U.S. Geological Survey, demonstrou que seis agrotóxicos persistentes foram encontrados nos poços em todo os EUA.

Um outro estudo nos EUA demonstrou a contaminação da água de poços domésticos, o que não deve ser muito diferente por aqui, principalmente nas zonas rurais, intensamente expostas pela aplicação dos agrotóxicos

Até mesmo os produtos orgânicos podem ser contaminados indiretamente, como é o caso dos antibióticos usados em animais e que são absorvidos pelas hortaliças cultivadas em solo adubado com resíduos animais. A agricultura orgânica é intensa utilizadora da adubação orgânica.

O abusivo uso de antibióticos levou a Coréia do Sul a rejeitar frango contaminado com antibióticos procedente do Brasil. Se isto acontece com o frango de exportação, o que acontecerá com o frango consumido por aqui mesmo?

O tema da contaminação por antibióticos foi muito bem discutido no artigo “Antibióticos, o mal que entra pela boca do homem”, de Ana Echevenguá.

Nem mesmo o mel está protegido de contaminação, como demonstrou a revista alemã Öko-TEST, de 02/01/2009, que, a partir de testes em laboratório, identificou uma generalizada contaminação do mel por transgênicos e agrotóxicos.

A contaminação das abelhas é um desastre global que ameaça a produção de alimentos. A segurança alimentar está ameaçada e a crise alimentar pode adquirir contornos ainda mais trágicos, se a maciça morte de colônias inteiras de abelhas continuar no ritmo atual. Sem este pequeno inseto polinizador os efeitos na produção agrícola podem ser devastadores.

Poucas pessoas sabem que as abelhas prestam serviços ambientais muito mais relevantes do que a mera produção de mel. As mais de 20 mil especies de abelhas polinizam a floração de, pelo menos, 90 culturas, tais como maçãs, nozes, abacates, soja, aspargos, brócolos, aipo, abóbora e pepino, laranjas, limões, pêssegos, kiwi, cerejas, morangos, melões, milho, etc.

Como já havia ocorrido com o tomate, a batata, o figo e o morango, também a uva recebe grandes doses de agrotóxicos. Uma pesquisa da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre o efeito de agrotóxicos em vinicultores do Rio Grande do Sul revelou altos índices de intoxicação.

Falando em uva, uma pesquisa comprovou que a exposição de ratas grávidas ao fungicida vinclozolin provocou inflamação na próstata dos filhos quando adultos. Este é um fungicida muito utilizado em uvas.

Poucas pessoas percebem que estamos expostos a um coquetel de diversos agrotóxicos, que não são testados, em termos de segurança, para exposição associada.

O tema do envenenamento cotidianofoi debatido com clareza e precisão nos artigos “agrotóxicos: O holocausto está aqui, mas não o vêem”, de Graciela Cristina Gómez e “Agrotóxicos: poluição invisível”, de Márcia Pimenta.

Uma pesquisa norte-americana demonstrou que pesticidas comuns na agricultura comercial que podem ‘atacar’ o sistema nervoso central dos salmões tornam-se ainda mais mortais quando combinados com outros pesticidas.

Cientistas do NOAA Fisheries Service e da Washington State University esperavam entrar efeitos perigosos nos pesticidas acumulados na água, mas ficaram supresos com a sinergia mortal de algumas combinações de pesticidas, mesmo quando combinados em níveis considerados baixos.

Resultado comparável foi obtido com a exposição de anfíbios e pesquisadores determinaram que mesmo baixas concentrações de pesticidas podem ser tóxicas quando vários produtos são misturados.

Se isto acontece com peixes e anfíbios, por que não com outros animais? Incluídos os humanos.

Também nos EUA, duas novas pesquisas, publicadas na edição online da revista Journal of Chromatography B, indicam que o leite nos EUA e Europa pode estar contaminado com estrogênios e com fármacos de uso veterinário.

A lista de acusações contra os agrotóxico é imensa. Sabemos, graças a pesquisas cientificas, que o pesticida Dieldrin é associado ao câncer de mama e que pesticidas podem afetar a fertilidade feminina. Os pesticidas, também, são relacionados a tumores cerebrais em mulheres.

Pesquisa da Fiocruz identificou que a exposição a agrotóxicos causa declínio no nascimento de homens em cidades do Paraná.

A intensa utilização de agrotóxicos no Brasil é ainda mais irresponsável do que nos EUA e na Europa. Um primeiro lugar porque, no Brasil, importamos agrotóxicos proibidos nos próprios países onde são produzidos.

E em segundo, porque um levantamento do Ministério da Agricultura detectou que agricultores estão utilizando agrotóxicos irregulares em pelo menos 61 hortaliças e frutas produzidas no Brasil. Os agrotóxicos registrados para o tomate, por exemplo, estão sendo utilizados para combater ervas daninhas e pragas da berinjela. A maior parte destes alimentos faz parte da dieta alimentar diária dos brasileiros.

A Anvisa, em abril/2008, divulgou o resultado do monitoramento de agrotóxicos em alimentos. O tomate, o morango e a alface foram os alimentos que apresentaram os maiores números de amostras irregulares referentes aos resíduos de agrotóxicos, durante o ano de 2007. Os dois problemas detectados na análise das amostras foram teores de resíduos acima do permitido e o uso de agrotóxicos não autorizados para estas culturas. Já a batata e a maçã tiveram redução no número de amostras com resíduos de agrotóxicos.

Bem, a lista de ‘desastres’ seria infinita e esta, creio, já é suficiente para uma rápida reflexão.

Aqui voltou à minha questão inicial: qual é o real custo social, ambiental e de saúde desta grande produção ‘aditivada’ com agroquímicos? Quem arca com as consequências e quem realmente paga por isto?

Pagamos, com nossa saúde e nossas vidas, mais este ‘subsidio’ aos que dizem alimentar o mundo.

Alimentam, é fato, mas colocam o veneno à nossa mesa

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br

coordenador do EcoDebate.

batendo bumbo...

[EcoDebate, 01/04/2009]

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