Produção de alimentos industrializados também incentiva a destruição das florestas tropicais para plantação de palma

Área florestal na Indonésia em processo de conversão para produção de dendê. Foto de arquivo
Área florestal na Indonésia em processo de conversão para produção de dendê. Foto de arquivo.

[Por Henrique Cortez, do EcoDebate] Vastas áreas florestais da Indonésia e Malásia já foram derrubadas para plantação de palma (dendezeiro) e o processo de desflorestamento está se acelerando.

Uma parte significativa desta substituição da floresta ocorre porque o óleo de palma é cada vez mais utilizado como fonte de biocombustível. Ele foi introduzido em escala industrial para substituir a soja, como principal fonte de produção de biodiesel, um combustível pretensamente ‘limpo’, mesmo quando são necessários 75 anos para compensar as emissões de carbono por desflorestamento para produção de óleo de palma.

Uma recente matéria [The guilty secrets of palm oil: Are you unwittingly contributing to the devastation of the rain forests?] no jornal The Independent, de 02/05/2009, adiciona mais um fator a complicar a sobrevivência das florestas tropicais da Indonésia e Malásia: a utilização do óleo de palma na produção de alimentos processados.

Os consumidores, crescentemente, rejeitam produtos com gorduras trans e o óleo de palma vem sendo adotado exatamente para substitui-las. Neste momento, na Europa, quase metade dos produtos já não contém gorduras trans, e a quantidade continua diminuindo rapidamente.

O Brasil, aproveitando os preços crescentes, também avança no valorizado mercado de óleo de palma. Muitos ambientalistas, dentre os quais nos incluímos, temem expansão da palma (dendezeiro) na Amazônia, inclusive na forma como está sendo proposta pelo agronegócio, com o apoio do MMA.

A matéria de Martin Hickman, do The Independent, é categórica em afirmar que o óleo de palma da Indonésia e Malásia é insustentável sob qualquer critério social ou ambiental.

A área destinada à produção de palma cresceu 43% desde 1990 e, nos últimos anos, cresce de 6 a 10% ao ano. E deve continuar a crescer porque, para a indústria alimentícias, o óleo de palma, ao preço atual de £400 ( R$ 1.281, em 5/5/2009) é mais barato do que o óleo de soja ou de girassol.

A produção anual atual está estimada em 38 milhões de toneladas, sendo 75% produzida na Malásia e Indonésia. Borneo produz 10 milhões de toneladas e Sumatra produz 13 milhões de toneladas.

O óleo de palma pode até sofrer restrições como insumo para o biodiesel, inclusive porque não é competitivo em termos de $/tonelada em relação ao óleo combustível de origem fóssil, mas é pouco provável que sofra qualquer restrição como insumo em produtos alimentícios, principalmente para substituir as ‘temidas’ gorduras trans.

Os danos, na Ásia, já são comprovados e reconhecidos : 90% dos orangotangos de Sumatra desapareceram desde 1990 e, rapidamente caminham para a extinção; 90% da vida selvagem desaparece quando a floresta é substituída pela palma, criando uma área ‘florestal’ sem diversidade biológica, um deserto verde; 98% das florestas da Indonésia, de acordo com a ONU, estarão destruídas até 2022.

A situação, detalhadamente descrita na matéria, pode ficar ainda pior, porque a sua produção está se espalhando pelo planeta. A China, consumidora de 16% de todo o óleo de palma produzido no mundo, já está adquirindo áreas na África para sua produção própria em terra estrangeira.

Com quase todo o seu território destinado à produção de dendê, a Indonésia já está adquirindo áreas em outros países, como Nigéria e Moçambique. No Brasil, já iniciaram negociações para adquirir 500 mil hectares no Maranhão [vejam em “Governador do Maranhão e embaixador da Indonésia discutem implantação de refinaria de biocombustível”].

Os biocombustíveis já podem causar um ‘surto’ de destruição das florestas tropicais úmidas e a ampliação da utilização do óleo de palma nos alimentos processados apenas piora a situação.

É mais um exemplo como as monoculturas, controladas por poucos e lucrativas para menos ainda, não desistirão enquanto não eliminarem toda a diversidade biológica no planeta.

Para acessar a matéria ‘The guilty secrets of palm oil: Are you unwittingly contributing to the devastation of the rain forests?‘, no original em inglês, clique aqui.

[EcoDebate, 05/05/2009]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta que envie um e-mail para newsletter_ecodebate-subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.

2 Responses to Produção de alimentos industrializados também incentiva a destruição das florestas tropicais para plantação de palma

  1. Maristela Simonin disse:

    Olá, Henrique! Esclarecedoras mas ao mesmo tempo assustadoras essas informações que vc nos traz sobre a expansão da monocultura da palma.
    Voltei do congresso da ABRAMPA com um projeto para ser divulgado no Brasil inteiro: “Preservação da Mama, Responsabilidade Socioambiental”. Falaremos disso oportunamente. Alguém de lá o contactou? A assessoria de imprensa estava interessada em entrevistá-lo.
    Outra coisa: alguma notícia sobre a conferência da Convenção de Estocolmo que está acontecendo esta semana em Genebra? Queira dar uma olhadinha no meu blog e, se tiver, sugiro que publique mais informações sobre o tema
    Abs,
    Maristela Simonin
    http://www.procurar.wordpress.com

  2. Pingback: Produção de alimentos industrializados também incentiva a destruição das florestas tropicais para plantação de palma | Portal EcoDebate

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: