Pesquisa identifica a contaminação dos cérebros de mamíferos marinhos por Poluentes Orgânicos Persistentes

Golfinho-de-laterais-brancas-do-Atlântico, Lagenorhynchus acutus. Foto da MarineBio.org
Golfinho-de-laterais-brancas-do-Atlântico, Lagenorhynchus acutus. Foto da MarineBio.org

[Por Henrique Cortez, do EcoDebate] Um novo e extenso estudo de poluentes nos cérebros de mamíferos marinhos revela que esses animais estão expostos a um perigoso cocktail de pesticidas, como DDTs e PCB, bem como contaminantes emergentes, como retardadores de chama.

O estudo [Organohalogen contaminants and metabolites in cerebrospinal fluid and cerebellum gray matter in short-beaked common dolphins and Atlantic white-sided dolphins from the western North Atlantic] foi publicado na edição on-line, de 17/04, da revista Environmental Pollution.

Os pesquisadores analisaram o liquor e a massa cinzenta do cerebelo de onze cetáceos e uma Foca-cinzenta, Halichoerus grypus, encalhada perto Cape Cod, Massachusetts. Suas análises incluem muitos dos produtos químicos listados como Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs, compostos altamente estáveis e que persistem no ambiente, resistindo à degradação química, fotolítica e biológica), muitos deles proibidos desde a década de 1970, em razão de seus riscos para a saúde humana.

Os produtos químicos estudados incluem pesticidas como DDT, reconhecidamente capaz de causar câncer, além de sua toxicidade reprodutiva, e PCB, reconhecido neurotóxico capaz de perturbar o sistema hormonal. O estudo também quantifica as concentrações de éteres difenílicos polibromados ou PBDE (uma classe particular de retardadores de chama), que são neurotóxicos, capazes de prejudicar o desenvolvimento da atividade motora e cognição. Este trabalho é o primeiro a quantificar as concentrações de PBDE no cérebro de mamíferos marinhos.

Os resultados revelaram que a concentração de um contaminante foi surpreendentemente alta. Particularmente os PCB hidroxilados, chamado 4-OH-CB107, foi encontrado em concentrações crescentes. Este contaminante pode ter efeitos secundários graves. Em ratos, foi demonstrado que ele se liga seletivamente a uma proteína chamada transportador transtiretina e que desempenha um papel importante no transporte do hormônio tireoidiano em todo o cérebro. O hormônio tiroideano desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do cérebro, bem como as funções sensoriais, nomeadamente audição em mamíferos. Audição comprometida teria impacto significativo para os golfinhos, porque, estes animais dependem da audição como sua principal modalidade sensorial de comunicar e de encontrar e capturar alimentos.

O trabalho estabelece as bases para compreender como contaminantes ambientais influenciam o sistema nervoso central dos mamíferos marinhos. Os pesquisadores consideram este estudo como a vanguarda de um novo campo de investigação, algo que poderia ser chamado neuro-ecotoxicologia. Durante anos, a maioria dos trabalhos nesta área incidiram sobre o modo como as concentrações de poluentes marinhos afetavam o sistema imunológico ou os sistemas hormonais. Esta pesquisa buscou avaliar como os contaminantes no oceano afetam o desenvolvimento neurológico dos mamíferos marinhos.

O artigo “Organohalogen contaminants and metabolites in cerebrospinal fluid and cerebellum gray matter in short-beaked common dolphins and Atlantic white-sided dolphins from the western North Atlantic“, publicado na Environmental Pollution doi:10.1016/j.envpol.2009.03.024, apenas está disponível para assinantes.

Nota do EcoDebate: Efeitos dos POPs na Saúde e no Ambiente de acordo com informações da Wikipédia

Os POPs são encontrados em todo o globo. Sendo agentes químicos semi-voláteis e insolúveis em água, são transportados a longas distâncias. Esta volatilidade é maior no equador do que em climas moderados e frios, acabando por ser aprisionados nas regiões mais frias do planeta como os pólos e regiões montanhosas. Altos níveis destes poluentes já foram detectados em regiões árticas, locais onde nunca foram utilizados para quaisquer fins. Sendo hidrofóbicos, em ambientes aquáticos só se encontram dissolvidos em tecidos de seres vivos ou em matéria orgânica, onde atingem concentrações muito maiores do que no meio envolvente (moléculas apolares como os POPs só se solubilizam em compostos com propriedades semelhantes). A natureza persistente dos POPs é demonstrada pela baixa taxa de degradação no solo, especialmente em regiões frias. O tempo de meia-vida destes produtos está contabilizado em décadas. Uma outra propriedade destes compostos é a sua lipofilia, ou seja, solubilidade em tecidos adiposos, o que leva a acumulações na gordura corporal e fígado dos animais a eles expostos. Alguns destes compostos além de bio-acumular, têm tendência para bio-magnificar, ou seja aumentar a sua concentração ao longo das cadeias tróficas.

Apesar de todos os POPs serem tóxicos para os humanos, a sua toxicidade varia sendo a endrina o mais tóxico enquanto que o heptacloro ou o hexaclorobenzeno não demonstram tanta toxicidade. Os primeiros indícios de toxicidade nos humanos foram observados nos anos 60. Desde aí já foram detectados muitos efeitos negativos, entre os quais: tumores, infertilidade, efeitos adversos nos rins e fígado, doenças cardiovasculares, mudanças comportamentais como fadiga, depressão, tremores, convulsões, etc

[EcoDebate, 23/05/2009]

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