Agroquímicos: Os venenos continuam à nossa mesa, por Henrique Cortez

veneno

[EcoDebate] Já discuti este tema antes, mas, diante do continuado crime de nosso envenenamento alimentar, acho necessário retomar a discussão e atualizar as informações e referências.

A agricultura “tradicional” se orgulha de produzir alimentos mais do que suficiente para alimentar o planeta e a indústria química se orgulha de ter desenvolvido os insumos utilizados para isto.

Devemos nos perguntar qual é o real custo social, ambiental e de saúde desta grande produção ‘aditivada’ com agroquímicos. Quem arca com as consequências e quem realmente paga por isto?

Não pretendo discutir o manejo do solo, a sua utilização intensiva e extensiva, a ponto do solo precisar de permanente aplicação de fertilizantes ou de que a produção animal seja um exemplo do horror da exploração desumana.

Prefiro falar do nosso longo e lento envenenamento diário. Prefiro discutir a comida que nos mata.

Há algum tempo assisti a um telejornal no qual um produtor de morangos, do interior de SP, declarou (devidamente protegido pelo anonimato) que não consumia o morango que produzia por causa dos agrotóxicos. Deste dia em diante passei a estar mais atento ao veneno na minha mesa.

Para colocar o tema em discussão, nem será preciso nada mais do que fazer um rápido e pequeno balanço do que já publicamos.

A intensa utilização de agrotóxicos na nossa agricultura foi claramente demonstrada no Censo Agropecuário 2006, confirmando que quase 80% de proprietários rurais usam agrotóxico.

Uma pesquisa da Fiocruz, em Pernambuco, identificou a presença de parasitos em 96,6% das amostras de alface coletadas em supermercados e feiras livres da cidade. E isto nas alfaces cultivadas pelo método tradicional, o orgânico e hidropônico.

No Japão, em setembro/2009, o arroz importado da China contaminado com pesticida e fungo levou ministro da agricultura a renunciar. Neste lamentável caso de ganância irresponsável (mais uma dentre tantas), o arroz foi importando para uso industrial, na produção de colas, mas funcionários da Mikasa Foods desviaram o lote para produção de comida, que contaminada por pesticida e fungo, foi servida em escolas, restaurantes, hospitais, lojas e lanchonetes.

O imenso volume de herbicidas aplicados no Brasil contaminam os solos, os mananciais e até mesmo o aqüífero Guarani. A contaminação dos mananciais e aqüíferos também chegará até nós pela água que bebemos e pelos produtos agrícolas irrigados com a água contaminada.

Um estudo, do U.S. Geological Survey, demonstrou que seis agrotóxicos persistentes foram encontrados nos poços em todo os EUA. Se esta tragédia tóxica acontece mesmo sob rígido controle, imaginem do lado de baixo do equador.

Um outro estudo nos EUA demonstrou a contaminação da água de poços domésticos, o que não deve ser muito diferente por aqui, principalmente nas zonas rurais, intensamente expostas pela aplicação dos agrotóxicos

Até mesmo os produtos orgânicos podem ser contaminados indiretamente, como é o caso dos antibióticos usados em animais e que são absorvidos pelas hortaliças cultivadas em solo adubado com resíduos animais. A agricultura orgânica é intensa utilizadora da adubação orgânica.

O abusivo uso de antibióticos levou a Coréia do Sul a rejeitar frango contaminado com antibióticos procedente do Brasil. Se isto acontece com o frango de exportação, o que acontecerá com o frango consumido por aqui mesmo?

O tema da contaminação por antibióticos foi muito bem discutido no artigo “Antibióticos, o mal que entra pela boca do homem”, de Ana Echevenguá.

Nem mesmo o mel está protegido de contaminação, como demonstrou a revista alemã Öko-TEST, de 02/01/2009, que, a partir de testes em laboratório, identificou uma generalizada contaminação do mel por transgênicos e agrotóxicos.

A contaminação das abelhas é um desastre global que ameaça a produção de alimentos. A segurança alimentar está ameaçada e a crise alimentar pode adquirir contornos ainda mais trágicos, se a maciça morte de colônias inteiras de abelhas continuar no ritmo atual. Sem este pequeno inseto polinizador os efeitos na produção agrícola podem ser devastadores.

Poucas pessoas sabem que as abelhas prestam serviços ambientais muito mais relevantes do que a mera produção de mel. As mais de 20 mil especies de abelhas polinizam a floração de, pelo menos, 90 culturas, tais como maçãs, nozes, abacates, soja, aspargos, brócolos, aipo, abóbora e pepino, laranjas, limões, pêssegos, kiwi, cerejas, morangos, melões, milho, etc.

Como já havia ocorrido com o tomate, a batata, o figo e o morango, também a uva recebe grandes doses de agrotóxicos. Uma pesquisa da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre o efeito de agrotóxicos em vinicultores do Rio Grande do Sul revelou altos índices de intoxicação.

Falando em uva, uma pesquisa comprovou que a exposição de ratas grávidas ao fungicida vinclozolin provocou inflamação na próstata dos filhos quando adultos. Este é um fungicida muito utilizado em uvas.

Poucas pessoas percebem que estamos expostos a um coquetel de diversos agrotóxicos, que não são testados, em termos de segurança, para exposição associada.

O tema do envenenamento cotidiano foi debatido com clareza e precisão nos artigos “agrotóxicos: O holocausto está aqui, mas não o vêem”, de Graciela Cristina Gómez e “Agrotóxicos: poluição invisível”, de Márcia Pimenta.

Uma pesquisa norte-americana demonstrou que pesticidas comuns na agricultura comercial, que podem ‘atacar’ o sistema nervoso central dos salmões, tornam-se ainda mais mortais quando combinados com outros pesticidas.

Cientistas do NOAA Fisheries Service e da Washington State University esperavam entrar efeitos perigosos nos pesticidas acumulados na água, mas ficaram surpresos com a sinergia mortal de algumas combinações de pesticidas, mesmo quando combinados em níveis considerados baixos.

Resultado comparável foi obtido com a exposição de anfíbios e pesquisadores determinaram que mesmo baixas concentrações de pesticidas podem ser tóxicas quando vários produtos são misturados.

Se isto acontece com peixes e anfíbios, por que não com outros animais? Incluídos os humanos que são envenenados e com os desumanos que nos envenenam.

Também nos EUA, duas novas pesquisas, publicadas na edição online da revista Journal of Chromatography B, indicam que o leite nos EUA e Europa pode estar contaminado com estrogênios e com fármacos de uso veterinário.

A lista de acusações contra os agrotóxico é imensa. Sabemos, graças a pesquisas cientificas, que o pesticida Dieldrin é associado ao câncer de mama e que pesticidas podem afetar a fertilidade feminina. Os pesticidas, também, são relacionados a tumores cerebrais em mulheres.

Pesquisa da Fiocruz identificou que a exposição a agrotóxicos causa declínio no nascimento de homens em cidades do Paraná.

A intensa utilização de agrotóxicos no Brasil é ainda mais irresponsável do que nos EUA e na Europa. Um primeiro lugar porque, no Brasil, importamos agrotóxicos proibidos nos próprios países onde são produzidos.

E em segundo, porque um levantamento do Ministério da Agricultura detectou que agricultores estão utilizando agrotóxicos irregulares em pelo menos 61 hortaliças e frutas produzidas no Brasil. Os agrotóxicos registrados para o tomate, por exemplo, estão sendo utilizados para combater ervas daninhas e pragas da berinjela. A maior parte destes alimentos faz parte da dieta alimentar diária dos brasileiros.

Como se não bastasse a importação e utilização legal agrotóxicos proibidos nos próprios países onde são produzidos, ainda são utilizados agrotóxicos ilegais, contrabandeados e sem qualquer controle de toxidade, como noticiamos na matéria “O veneno à nossa mesa: Polícia Federal realiza operação de repressão ao contrabando de agrotóxicos ilegais”.

Para aumentar o caos venenoso, ainda há quem adultere a formulação de agrotóxicos autorizados, como ocorreu quando a fiscalização da Anvisa apreende 1 milhão de litros de agrotóxicos adulterados na Bayer.

Mas este foi apenas mais um caso, porque, em agosto/2009, a Anvisa já havia apreendido 950 mil litros de agrotóxicos adulterados e interditado a linha de produção de cinco agrotóxicos da empresa Iharabras S.A Indústria Química, integrante de um conglomerado japonês.

Antes disso operação simultânea da Anvisa e Polícia Federal apreendeu 2,5 milhões de litros de agrotóxico adulterado e interditou a linha de produção de cinco agrotóxicos da empresa Milenia Agrociencias S/A, filial do grupo israelense Makhteshim Agan.

Observem, nestes três casos mais recentes, que não estamos falando de laboratórios clandestinos ou ‘empresas de garagem’, mas de grandes multinacionais. Por aí imaginem o que se produz e adultera em estabelecimentos clandestinos.

A Anvisa, em abril/2008, divulgou o resultado do monitoramento de agrotóxicos em alimentos. O tomate, o morango e a alface foram os alimentos que apresentaram os maiores números de amostras irregulares referentes aos resíduos de agrotóxicos, durante o ano de 2007. Os dois problemas detectados na análise das amostras foram teores de resíduos acima do permitido e o uso de agrotóxicos não autorizados para estas culturas. Já a batata e a maçã tiveram redução no número de amostras com resíduos de agrotóxicos.

Fazendo um balanço deste criminoso e continuado envenenamento cotidiano uma excelente reportagem de Nilza Bellini, na Revista Problemas Brasileiros, nº 394, denunciou que o Brasil é campeão mundial de envenenamento e que os pesticidas intoxicam trabalhadores rurais e contaminam alimentos.

Bem, a lista de ‘desastres’ seria infinita e esta, creio, já é suficiente para uma rápida reflexão.

Aqui voltou à minha questão inicial: qual é o real custo social, ambiental e de saúde desta grande produção ‘aditivada’ com agroquímicos? Quem arca com as consequências e quem realmente paga por isto?

Pagamos, com nossa saúde e nossas vidas, mais este ‘subsidio’ aos que dizem alimentar o mundo.

Sinceramente, não me sinto grato pelo ‘imenso favor’ de nos alimentarem. Alimentam, é fato, mas colocam o veneno à nossa mesa

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br

coordenador do EcoDebate.
batendo bumbo...

EcoDebate, 03/10/2009

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3 Responses to Agroquímicos: Os venenos continuam à nossa mesa, por Henrique Cortez

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  2. Silvia disse:

    Mando um texto que publiquei no jornal Urtiga, em 1987, discurso do então deputado federal constituinte José Elias Murad, feito no Congresso Nacional, durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte, em 1987. Tristemente atualíssimo. Adoraria ve-lo publicado neste blog.

    ADIVINHE O QUE TEM PARA JANTAR?

    “Hoje estou convidando os colegas constituintes para jantar. Afianço-lhes de que não é meu aniversário, nem estou comemorando alguma data importante ou homenageando alguém. Trata-se de um jantar corriqueiro, simples, frugal como é comum à mesa da maioria dos brasileiros.
    Seus componentes não foram adquiridos nas lojas sofisticadas de alimentos, mas sim nos mercados, nas mercearias e nas quitandas normais do nosso comércio alimentício O menu será exatamente aquele que a nossa dona de casa faz normalmente no seu dia a dia de trabalho.
    Haverá o clássico arroz com feijão, uma comida bem brasileira. Se notarem neles um leve cheiro de solvente, não estranhem. Devem ser traços ou restos de agrotóxicos com que foram tratados a fim de aumentar seu tempo de conservação.
    Um bife acebolado estará também presente. Há uma grande probabilidade de que sua carne seja proveniente de gado tratado com hormonios anabolizantes, corriqueiramente usados na engorda de rezes. É verdade que tais hormônios podem provocar, secundariamente, virilização , aumento dos pelos, alterações nos órgão sexuais, endurecimento ósseo e engrossamento da voz, o que, por sinal poderá ser até útil àqueles parlamentares que gostam de no microfone falar grosso contra o Governo.
    A cebola costuma ter uma substância química antibrotante, nela colocada a fim de bloquear amadurecimento prematuro. Dizem que tal produto é potencialmente cancerígeno, mas tal é o efeito a longo prazo e, quem sabe até lá já tenham descoberto a cura do câncer? Haverá também algumas poucas verduras. O trivial, como tomate, alface, nabo ou rabanete, muito semelhantes àquelas servidas em nossas casas de lanches que alguém já denunciou como podendo provocar a chamada “diarréia dos restaurantes”, por causa do aditivo químico que se coloca a fim de melhorar seu aspecto, dando-lhes aparência de novinhos.
    Como alguns convidados são abstêmios, vamos oferecer água mineral à sua escolha. Pode ser a de Lindóia, com várias salmonelas por mililitro, ou a de Araxá, com 1,7 ppm (partes por milhão) de cloreto de bário.
    Os que não gostam de água mineral, podem optar por suco de frutas com 400 ppm de dióxido de enxofre, apesar da FAO (Organização Mundial de Agricultura e Alimentos) e a OMS (Organização Mundial de Saúde) admitirem um máximo de 200. É que o suco pode ser diluído em água, segundo o senhor Ministro da Saúde declarou há poucos dias, diante da nossa Subcomissão de Saúde, Seguridade e Meio Ambiente. Se você diluir cada garrafa em um tambor de água não correrá risco algum.
    Para reforçar o jantar, vamos oferecer também um produto altamente nutritivo. Um copo de leite à sua escolha. Ou o nacional, com 10 bacilos fecais por mililitro, ou o importado da Irlanda, com 3500 bequerréis de radioatividade por litro. A escolha é sua: diarréia ou leucemia.
    Ah!, ia me esquecendo da sobremesa. Pode ser quindim bem amarelinho, cuja coloração deveria ser do teor da gema de ovo, mas que geralmente é derivada de um corante químico, o amarelo de metenila, potencialmente cancerígeno. Ou então, para quem estiver em dieta, uma gelatina verde ou vermelha, contendo cerca de 20 vezes o teor de cromo do que o permitido por lei.
    Eis aí, senhoras e senhores constituintes um jantar bem à brasileira, ao sabor dos dias atuais. E, como dizem os franceses, “bon appetit”, se é que vocês ainda tem algum.”

  3. Silvia disse:

    Complementando:
    o Jornal Urtiga, da Associação Ituana de Proteção Ambiental, foi publicado em Itu entre 1987 e 2005. Foi suplemento de jornais em Itu, além de distribuição a sócios e ongs ambientalistas. Desde 1999, as principais matérias também entraram no site http://www.aipa.org.br – seção Jornal Urtiga

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