O ambientalismo ‘coleciona’ derrotas, mas desistir não é opção, artigo de Henrique Cortez

[EcoDebate] A causa socioambiental passa por momentos difíceis, com seguidas derrotas. ‘Novo’ Código Florestal, Belo Monte, usinas no rio Madeira, transposição do Rio São Francisco, expansão do programa nuclear, poluição atmosférica crescente em nossas cidades, contaminação de alimentos e da água por agrotóxicos, abandono completo dos mais elementares cuidados de biossegurança, criminalização dos movimentos sociais, reforma agrária patinando e por aí vai.

Uma observação minimamente crítica indica que tivemos pequenos avanços pontuais e enormes derrotas estratégicas. Os movimentos sociais e populares discutem o que fazer e como identificar as melhores estratégias.

A discussão é pertinente e importante, mas devemos ter o cuidado de observar a estratégia que está por trás dos planos do governo. Estas estratégias estão interligadas e focadas no modelo de desenvolvimento, o desenvolvimentismo produtivista.

Em primeiro lugar, a insustentável expansão da fronteira agropecuária, incentivada pela exportação de grãos e carne, segue implacável.

Em segundo lugar, defende-se a expansão produtivista da capacidade de geração de energia elétrica, ‘esquecendo-se’ de que 20% de nossa energia firme é consumida pela indústria eletrointensiva (quase 500 empresas). Quase 80% das novas usinas projetadas e licitadas foram concebidas para atender este segmento industrial “energívoro”. É o caso das usinas do rio Madeira e de Belo Monte. Este segmento dedica-se, essencialmente, à exportação, tal como o alumínio primário, o que nos faz grandes exportadores de energia e água virtuais.

Na verdade, deveríamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico neocolonial escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.

Em terceiro, observem que existe uma estratégia cuidadosamente orquestrada, que inclui temas que, aparentemente, fazem parte de uma agenda secreta. É o caso das usinas do Madeira e Belo Monte, porque parece claro o interesse na hidrovia, novamente para atender aos exportadores de produtos primários.

Quanto ao rio São Francisco, já sabemos as verdadeiras razões da transposição. Mas qual é a lógica de criar novas usinas no rio, inclusive usinas nucleares?

Uma usina nuclear nada mais é do que uma usina termelétrica. Ou seja, simplificadamente, é uma gigantesca caldeira que através da queima de um combustível (gás, carvão ou nuclear) aquece água em alta pressão para girar uma turbina. Uma usina termelétrica, nuclear ou não, com 1,3 mil MW consome, por dia, água equivalente a uma cidade de 100 mil habitantes.

Na atual situação do São Francisco isto seria maluquice, certo? O governo acredita que não, por causa do “adormecido” projeto de transposição do Tocantins para o São Francisco. Este projeto, de Furnas, foi finalizado em meados do primeiro ano do Governo Lula (vejam em http://www.sfiec.org.br/artigos/infraestrutura/Transposicao_tocantins.htm ). O então superministro José Dirceu falou do assunto várias vezes (vejam em http://www.planobrasil.gov.br/noticia.asp?cod=236 ) .

Usinas nucleares também atendem a interesses militaristas. Desde o início do primeiro mandato do governo Lula, ocorreram várias defesas da bomba atômica e vários desmentidos, mas a freqüência com que o assunto volta a tona indica que a agenda nuclear militar pode estar adormecida, mas não está morta.

Bem, esta é apenas uma amostra do que pode estar acontecendo nos bastidores e indica que nossas propostas, quaisquer que sejam, serão solenemente ignoradas.

Os governos, e Lula o fez intensamente, reclamam dos ambientalistas, dos índios, dos quilombolas, dos ribeirinhos, do ministério público, do poder judiciário, dos movimentos sociais e de todos os que não concordam com esta opção pseudo-desenvolvimentista. E reclamam com razão, porque estes segmentos da sociedade não aceitam este modelo de desenvolvimento a qualquer custo.

Fomos considerados adversários porque recusamos este modelo de desenvolvimento neocolonial e porque somos um risco a esta orquestração e ao atendimento da agenda neoliberal. Esta é a essência dos ataques à legislação ambiental e da “flexibilização” dos licenciamentos.

Engana-se quem imagina que esta estratégia nasceu no governo Lula e foi herdada por Dilma. Ela é antiga e possui suficiente força econômica e política para manter-se ativa em quaisquer governos.

Como já disse antes, não vejo, de fato, qualquer diferença real entre o “desenvolvimentismo” de direita e o “desenvolvimentismo” com rótulo de esquerda. Nos dois casos, os perdedores são os mesmos de sempre.

O pragmatismo de governar, atendendo aos grandes interesses econômicos, acolhe em sua base de apoio políticos com longa e consolidada trajetória fisiológica.

Uma visão mais crítica e isenta elimina a ambigüidade e define claramente quem é quem. Quem tem um projeto de poder e quem tem um projeto de país.

Muitos acreditam que um outro Brasil é possível e necessário, meta da qual não nos “cansamos”. Podemos estar aborrecidos e frustrados, mas, definitivamente, não estamos desmotivados e muito menos “cansados”.

O lado bom da história é que esta tragédia anunciada não é irreversível, porque ainda é possível discutir e questionar este equivocado modelo de desenvolvimento. Podemos e devemos tentar mudar o curso deste governo eleito para ser democrático e popular. É o nosso papel e não podemos abrir mão dele.

Teremos o futuro que fizermos por merecer. Nem mais, nem menos.

Portanto, vamos à luta.

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate
batendo bumbo

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A ‘ameaça’ de internacionalização da Amazônia é mito, por Henrique Cortez

[EcoDebate] Novamente retornam as preocupações para com a internacionalização da Amazônia, inclusive servindo de lastro para acusar os ambientalistas, ONGs e críticos da devastação, como se estivessem a soldo de interesses escusos. Como pano de fundo, temos o medo de uma pretensa internacionalização de nossa Amazônia.

Aliás, freqüentemente falamos da nossa Amazônia, das ameaças à nossa Amazônia, dos desafios da Amazônia brasileira e por aí vai, sempre esquecendo que a região não é apenas nossa. O eterno argumento em defesa da “nossa Amazônia” contra a internacionalização é um equívoco, porque, composta por 8 países, a Amazônia continental já é internacionalizada.

Então, com um pouco de geografia básica, percebe-se que a nossa Amazônia não é só nossa e não corre risco de ser “internacionalizada”, pois já pertence a mais sete países vizinhos. Precisamos é agir em parceria em sua defesa, pelo seu desenvolvimento e pela conservação de seus recursos naturais. Devemos ter a responsabilidade de compreender que os equívocos de nossas políticas públicas (ou da ausência delas) na conservação e uso sustentável da “nossa amazônia” afetam diretamente mais 7 países e, indiretamente, todo continente e, em seguida, todo o planeta.

A omissão das autoridades, a falta de uma compreensão real e efetiva do que seja desenvolvimento sustentável, a descontrolada expansão da fronteira agropecuária e a atuação impune de grileiros e madeireiros são claros componentes da sua devastação. A expansão irresponsavelmente descontrolada da fronteira agropecuária está devastando o presente e pode exterminar o futuro, não apenas do cerrado e da Amazônia, como de toda a agricultura sustentável de nosso país.

Todas as autoridades públicas, têm a obrigação de saber disto e atuar na defesa dos interesses nacionais, sem apelar para o fácil argumento de um pretenso inimigo externo, como justificativa para a ocupação e exploração irresponsável.

Mais uma vez reafirmo que, como muitos outros ambientalistas, compreendo o desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento.

E continuaremos repetindo à exaustão que este equivocado modelo de desenvolvimento é apenas um processo exploratório, irresponsável e ganancioso, que atende a uma minoria poderosa, rica e politicamente influente.

Por outro lado, o discurso do risco de internacionalização, com invasão pelos marines e tudo mais, apenas serve à direita desenvolvimentista, que sempre usa pretensas ameaças externas como justificativa do que quer que seja. É importante lembrar que a ditadura militar cansou de usar o pseudo-argumento “Integrar para não entregar”, na tentativa de justificar a ocupação desordenada da Amazônia, raiz de sua devastação.

Todos os recursos da Amazônia, a nossa e dos outros, já está à disposição do mercado internacional, tendo em vista a perpetuação de nossa pauta colonial de exportação de produtos primários, que corresponde a mais de 50% de nossas exportações. Ninguém precisa nos invadir simplesmente porque já vendemos tudo aos “melhores” preços, sem que isto tenha realmente contribuido para a melhoria dos indicadores sociais e econômicos da região.

Não há qualquer recurso natural que já não esteja à disposição dos interesses econômicos, nacionais e transnacionais.

Além dos discursos e bravatas pouco ou nada fazemos de real pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia, da nossa e dos nossos vizinhos, além de não temos uma verdadeira estratégia de integração com os demais países amazônicos.

Para que a “nossa” Amazônia seja realmente nossa, precisamos retoma-la dos grileiros, madeireiros ilegais, agro-gananciosos, garimpeiros ilegais e outros devastadores, incluindo políticos que ainda agem como donatários das Capitanias Hereditárias. Ela será nossa na exata medida em que formos efetivamente responsáveis pelo seu destino.

Não creio que corremos o risco real de ter a “nossa” Amazônia invadida em prol da governança global, mas certamente teremos problemas nas relações multilaterais, no acesso aos financiamentos internacionais e no boicote aos nossos produtos e serviços, inclusive justificando uma renovada onda protecionista. Este é um risco real e imediato.

Não há como negar que seremos cobrados e muito. Cobrados e com razão. Mas ainda temos tempo e oportunidade de dizer a nós mesmos, antes de dizer ao mundo e aos nossos vizinhos, que somos capazes de agir com responsabilidade e seriedade.

Henrique Cortez, ambientalista, coordenador do portal EcoDebate
batendo bumbo

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A continuada devastação da Amazônia e o modelo de desenvolvimento, por Henrique Cortez

[EcoDebate] Dentre os movimentos sociais, os ambientalistas têm sido os críticos de primeira hora dos equívocos das políticas públicas, principalmente dos modelos econômico e de desenvolvimento, bem como de seus impactos sociais e ambientais.

Por diversas vezes alertamos que o processo de devastação avança sem controle e que não observamos medidas estruturais que possam interromper este processo equivocado de desenvolvimento, socialmente injusto e ambientalmente irresponsável.

Ninguém está propondo a insanidade de condenar a agricultura, mas não podemos aceitar os agrobandidos (grileiros e madeireiros ilegais), que ”abrem” espaço para pecuaristas e sojicultores. Este é o modelo de produção em terras públicas, crescentemente griladas.

Sempre insistimos nas nossas preocupações com o mais do que conhecido consórcio amazônico da devastação: grilagem-madeireiras ilegais-queimadas-pecuária-monocultura da soja.

Não falamos da agricultura sustentável e responsável, nem do agronegócio em si, mas dos agrobandidos que se escondem atrás daqueles que produzem de forma correta e responsável. A imensa maioria dos produtores rurais é social e ambientalmente responsável.

No sul e sudeste do Brasil, os madeireiros sabem da importância do manejo florestal para a sobrevivência do próprio negócio. Não é o caso da Amazônia legal, porque é baseada apropriação e na grilagem de terras públicas, na fraude fundiária, no desmatamento ilegal e no trabalho escravo. A fraude fundiária é de tal monta que se todos os ”proprietários” reclamassem suas terras teríamos de invadir a Amazônia de sete países vizinhos.

Estes problemas fazem parte de um processo ilegal e irresponsável de ocupação da Amazônia, amplamente denunciado pelos movimentos sociais. Há décadas acontece da mesma forma e sempre na mesma seqüência: grileiros – madeireiros – queimadas – pecuaristas – produtores de grãos.

É importante destacar que o trabalho escravo é intensamente utilizado na primeira fase do processo – grilagem e desmatamento ilegal.

É perfeitamente possível que os recursos naturais sejam usados de forma sustentável. A agricultura sustentável e ambientalmente responsável já é comum em boa parte do país. Não há porque isto não aconteça no Cerrado e na Amazônia.

No Cerrado e na Amazônia, há décadas, existe um gigantesco esquema ilegal e corrupto que se apropria dos ativos ambientais e que somente pode ser combatido sistemicamente, se o modelo de desenvolvimento for repensado. Na verdade deveríamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia

Nossa compreensão de desenvolvimento é completamente diferente do que aí está. Queremos um desenvolvimento que seja sustentável, economicamente inclusivo, socialmente justo e ambientalmente responsável. Se não for assim não é sustentável. Aliás, também não é desenvolvimento.

Precisamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, alumínio primário, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.

Ou questionamos e encontramos um outro modelo de desenvolvimento ou continuaremos no modelo colonial de exportação de produtos primários. É o que fazemos desde o descobrimento (apenas mudamos de senhores ao longo do tempo) e ainda não chegamos lá.

Parafraseando o jornalista e ambientalista Washington Novaes, se devastação e exploração irracional de recursos naturais levasse ao desenvolvimento, já seríamos o mais rico e desenvolvido país do mundo.

O aumento da devastação poderia ter sido evitado, mas não foi. E, se depender de medidas estruturais, continuará não sendo.

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
Coordenador Editorial do Portal EcoDebate
batendo bumbo

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Fazendo de conta que os licenciamentos ambientais são de verdade, por Henrique Cortez

[EcoDebate] O título deste texto é menos absurdo do que pode parecer à primeira vista. Nos últimos anos, estão cada vez mais freqüentes as denúncias de EIA-RIMAs tecnicamente inconsistentes ou fraudulentamente produzidos. E isto é um problema extremamente sério.

Já é evidente que surgiu uma indústria de EIA-RIMAs pré-fabricados apenas e tão somente para atender às exigências legais mínimas. A cada dia surgem novos questionamentos sobre a veracidade destes estudos.

Neste sentido os casos das hidrelétricas de Barra Grande, no rio Madeira, de Belo Monte, da usina nuclear deAngra 3 e outros casos escandalosos. No EcoDebate a tag “licenciamento ambiental” é rica em detalhes deste problema que se agrava.

As ambientalistas Ana Echevenguá (Eco&Ação) e Telma Monteiro (Blog Telma Monteiro) são figuras importantes nas denúncias dos licenciamentos de mentirinha, tão do agrado dos grandes interesses econômicos e do governo desenvolvimentista de plantão. Em seus sítios/blogues discutem, denunciam e expõe esta “linha de montagem” de licenciamentos, com clareza e profundidade.

Este governo não consegue compreender que o processo de licenciamento ambiental é “ligeiramente” diferente da concessão de um mero alvará e por isto não suporta a idéia de que as licenças não sejam concedidas automaticamente, como se fossem meros detalhes burocráticos.

Se dependesse do voluntarismo governamental teríamos ampla e irrestrita concessão de licenças ambientais, para quaisquer atividades, sem qualquer consideração para com as questões socioambientais.

Diversos membros do primeiro círculo do poder já afirmaram que a grande fase do desenvolvimento do Brasil se deu durante os governos militares, coincidentemente uma época em que as preocupações sociais e ambientais das grandes obras simplesmente inexistiam.

Aliás, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva não cansou de elogiar os projetos dos governos militares, quando a agenda desenvolvimentista era imposta na marra.

O governo, desde o governo Lula, reclama dos ambientalistas, dos índios, dos quilombolas, dos ribeirinhos, do ministério público, do poder judiciário, dos movimentos sociais e de todos os que não concordam com esta opção pseudodesenvolvimentista. E reclama com razão, porque estes segmentos da sociedade não aceitam este modelo de desenvolvimento a qualquer custo.

Enquanto isto, a tragédia dos licenciamentos de mentirinha se agrava. Os erros e inconsistências são de tal monta que os órgãos ambientais, em muitos casos, chegam a exigir tantas condicionantes que praticamente equivalem a outro EIA.

Isto, em princípio, não seria um problema se os órgãos ambientais não estivessem sucateados, sem funcionários técnicos e com uma inadequada estrutura técnica e administrativa.

A fragilização estrutural, a falta de funcionários capacitados e corretamente qualificados e a falta de suporte de adequadas políticas públicas dificultam a avaliação técnica dos licenciamentos e abre portas aos oportunistas. Isto é um problema com mais de 10 anos e continua a se agravar.

Outra questão que está sempre presente é o abandono dos compromissos de mitigação e compensação exigidos na Licença Prévia. Os empreendedores sabem que os órgãos ambientais não conseguirão fiscalizar o cumprimento das condicionantes antes da Licença de Operação (LO) e, neste momento, não terão apoio político para revogar o licenciamento.

Aliás, nada obriga que um empreendimento seja licenciado. Diante dos impactos socioambientais o órgão licenciador pode e deve negar o licenciamento. Ok, pode e deve em tese, porque isto não acontece, nem que o governo tenha que substituir o dirigente, tal como recentemente aconteceu com um ex-presidente do Ibama em relação ao licenciamento ‘provisório’ da UHE de Belo Monte.

E a indústria de EIA-RIMAs pré-fabricados apenas piora o problema. Bem, mas o que fazer?

Já foi um grande avanço quando o IBAMA suspendeu a licença ambiental para Hidrelétrica do Baixo Iguaçu (PR) , em razão de uma ação civil pública. O empreendimento seria construído nos municípios de Capanema e Capitão Leônidas Marques, a cerca de 500 metros do Parque Nacional do Iguaçu. A ação afirma que o estudo de impacto ambiental e o relatório de impacto ambiental (EIA/Rima) têm lacunas e omissões que impedem o dimensionamento adequado dos impactos que a construção provocaria.

Em primeiro lugar, é evidente que o licenciamento existe para ser rigorosamente observado. E não existe a obrigatoriedade de licenciar toda e qualquer obra, só porque uma empresa e/ou o governo querem que assim seja.

Para isto, os órgãos ambientais, na medida do possível, já estão fazendo o que devem – analisando com rigor e critério. Ao empreendedor cabe o risco de ter a análise tão demorada quanto o EIA-RIMA for impreciso ou inconsistente. E, se for o caso, ter o licenciamento negado.

Em segundo, no caso federal, excluir do Cadastro Técnico Federal todas as empresas que tenham “produzido” estudos sem qualidade técnica. No caso de fraude ela deve ser tratada como realmente é: como crime. E , aos empreendedores, co-responsáveis no EIA-RIMA fraudulento, ficará o ônus do licenciamento negado.

E, por fim, os Conselhos Regionais, dos profissionais que subscrevem os EIA-RIMAs inconsistentes ou fraudulentos, devem apurar as responsabilidades profissionais e, definidas as responsabilidades em processos administrativos, aplicar as penalidades previstas em lei, inclusive a cassação do registro profissional.

Esta crise só terminará quando acabar a impunidade e é isto que devemos exigir.

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
coordenador editorial do Portal EcoDebate

EcoDebate

Afinal, mídia alternativa e independente para que? por Henrique Cortez

[EcoDebate] Atitude e consciência não são assuntos diretamente socioambientais, mas relacionam-se com nossos projetos, quer sejam ambientais, sociais ou culturais. Aos leitores que não gostam de textos longos e reflexivos, peço desculpas, mas realmente gostaria de contar com a reflexão e opinião de vocês, porque acredito que ainda enfrentaremos sérios problemas pela frente.

Nos últimos anos, as empresas estão concentrando suas verbas de apoio, publicidade e patrocínio em projetos que tenham como foco os vips, famosos e celebridades. Argumentam que isto oferece maior retorno de mídia (aí entendidas Caras, Chiques & Famosos, Isto É Gente, Quem Acontece, Flash, Contigo e outros veículos de comunicação).

Em temas ambientais, já vi consistentes projetos de educação ambiental substituídos por “ações de conscientização” nas quais uma figura famosa “dedicou” um dia em uma escola, para incentivar a sensibilidade ambiental, com farta distribuição de bonés e camisetas… .E nada mais.

Mas, até que ponto somos co-responsáveis por esta situação? Explico melhor – não estaremos falhando ao não propor e incentivar que as pessoas tenham a compreensão de que sua opção pela aquisição de serviços ambientais, sociais e culturais (a revista Caras é um serviço cultural) pode ser, no longo prazo, alienante e insustentável.

Quantos de nós somos assinantes de publicações realmente ambientais, sociais ou culturais?

Este crescente processo de comunicação alienante está nos conduzindo a um gueto cada vez menor. Suportaremos a asfixia? Não tenho a resposta e acho que ninguém tem.

No entanto, acho que estamos falhando em nossos compromissos, ao não incluir o desenvolvimento de uma consciência crítica da realidade no conceito de desenvolvimento sustentável. A tal “nova ética” da qual tanto falamos também deve incluir o acesso e a escolha da informação que queremos e precisamos.

Isto é extremamente evidente no consumo de produtos culturais. Nas bancas de jornal podemos encontrar 3 publicações mensais diferentes sobre Feng Shui. Quantas publicações socioambientais estão nas bancas? Não estão nas bancas porque ninguém compra, virando grandes encalhes.

Os veículos de comunicação ambiental socioambiental sobrevivem com dificuldade porque é uma luta conquistar leitores pagantes ou assinantes e, por conseqüência, contar com apoio de anunciantes.

Enquanto isto, Caras, Chiques & Famosos, Isto É Gente, Flash, Contigo, Quem Acontece, etc., vendem muito e têm muitos (e põe muitos nisso) leitores e anunciantes. É até divertido ver como as grandes empresas investem em relevantes atividades culturais, tais como festas, casamentos, baladas, feijoadas, ilhas, camarotes, etc…

Vejamos, por exemplo, aos recentes “grandes” shows na praia. Ótimo porque é gratuito, com livre acesso à população. Bem, na verdade não é tão ótimo assim, porque o “povão” teve que chegar horas antes, ficar exposto ao sol, à chuva e ao desconforto. Nem todos, no entanto, estiveram ao relento, porque foi feita exceção aos que “brilham” na mídia. Os famosos tiveram camarote climatizado, sanitários, bufê, garçons e ainda ganharam celulares de última geração.

O povão não “brilha”, não freqüenta os camarotes dos mega-eventos sociais, mas, no entanto, é ele quem realmente sustenta as grandes empresas. Ele sustenta, mas não usufrui. É a lógica da exclusão sob a roupagem da responsabilidade social, uma versão fashion do apartheid.

A média da programação da TV sobre assuntos ‘ecológicos’ também é descompromissada, porque tende a abordar temas distantes da realidade, mas com forte significado visual, documentando paisagens paradisíacas e a “força” da natureza, sem, no entanto, motivar o telespectador a uma atitude mais reflexiva. Sempre romantizando a natureza, sempre de forma bucólica, mas distante. É uma válida estratégia editorial, para evitar a baixa audiência. Na outra ponta da realidade, o programa Repórter Eco, da TV Cultura-SP, criado e dirigido por Washinton Novaes há mais de 10 anos, apenas sobrevive porque é apoiado e veiculado em uma TV pública, mas com audiência muito restrita, incomparavelmente menor que a programação de ‘futilidade pública’.

A realidade está demonstrando que muitas pessoas estão optando pela alienação e nós não estamos colocando isto em discussão. Mas, é importante lembrar que alienação e consciência não andam juntas.

Reclamamos da perda de qualidade da programação televisiva, citando os casos Ratinho, João Kleber, e outros. Tudo bem é verdade, mas estes programas existem porque têm audiência e, se tem audiência, têm anunciantes.

A televisão (aberta e a cabo) possui vários programas de viagens-esportes radicais-aventuras, sempre visualmente bonitos e ancorados em belas modelos de biquíni. Tudo bem, o visual é ótimo, mas e daí? Talvez seja para atender à demanda de milhões de surfistas e praticantes de esportes radicais. Talvez…

Se formos sinceros, perceberemos que o problema não está na alienação de programas e matérias, mas na opção dos leitores e telespectadores. Precisamos analisar e compreender o porquê disto e a quem serve esta atitude voyeur e descompromissada.

A sociedade precisa ter acesso à informação – toda e qualquer informação. As pessoas, diante das informações disponíveis, devem optar por qual conteúdo querem. Em certa medida, este é, simplificadamente, o conceito essencial da democratização da informação.

E, exatamente em respeito ao direito de informação, a mídia de consciência deve esforçar-se por sobreviver e demonstrar à sociedade que nossa existência cumpre um relevante papel social.

De certa forma, sentimo-nos culpados porque somos chatos. Nós falamos de ética, cidadania, saúde, paternidade responsável, consumo consciente e responsável, limites, etc. Afinal, é muito mais divertido ler sobre quem está “pegando” quem ou de quem está “brilhando”.

A questão, portanto, é que, pela crescente opção pela alienação, nosso segmento de mídia caminha para a extinção, do mesmo modo como aconteceu com biomas inteiros, apesar dos inestimáveis serviços ambientais que prestavam à sociedade.

E, se isto for verdade, é nossa responsabilidade assumir um papel mais ativo no processo, valorizando a educação (com “e” maiúsculo) e motivando os leitores e telespectadores para uma compreensão mais crítica da realidade. Se formos extintos, que seja por decisão consciente da sociedade e não porque as corporações nos consideram desnecessários e “aborrecidos” e, por isto, não possuem qualquer real compromisso em apoiar, incentivar e patrocinar a democratização da informação.

O leitor tem direito a optar pela informação descompromissada, mas nós não temos direito à omissão.

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
Coordenador do Portal EcoDebate

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