Afinal, mídia alternativa e independente para que? por Henrique Cortez

[EcoDebate] Atitude e consciência não são assuntos diretamente socioambientais, mas relacionam-se com nossos projetos, quer sejam ambientais, sociais ou culturais. Aos leitores que não gostam de textos longos e reflexivos, peço desculpas, mas realmente gostaria de contar com a reflexão e opinião de vocês, porque acredito que ainda enfrentaremos sérios problemas pela frente.

Nos últimos anos, as empresas estão concentrando suas verbas de apoio, publicidade e patrocínio em projetos que tenham como foco os vips, famosos e celebridades. Argumentam que isto oferece maior retorno de mídia (aí entendidas Caras, Chiques & Famosos, Isto É Gente, Quem Acontece, Flash, Contigo e outros veículos de comunicação).

Em temas ambientais, já vi consistentes projetos de educação ambiental substituídos por “ações de conscientização” nas quais uma figura famosa “dedicou” um dia em uma escola, para incentivar a sensibilidade ambiental, com farta distribuição de bonés e camisetas… .E nada mais.

Mas, até que ponto somos co-responsáveis por esta situação? Explico melhor – não estaremos falhando ao não propor e incentivar que as pessoas tenham a compreensão de que sua opção pela aquisição de serviços ambientais, sociais e culturais (a revista Caras é um serviço cultural) pode ser, no longo prazo, alienante e insustentável.

Quantos de nós somos assinantes de publicações realmente ambientais, sociais ou culturais?

Este crescente processo de comunicação alienante está nos conduzindo a um gueto cada vez menor. Suportaremos a asfixia? Não tenho a resposta e acho que ninguém tem.

No entanto, acho que estamos falhando em nossos compromissos, ao não incluir o desenvolvimento de uma consciência crítica da realidade no conceito de desenvolvimento sustentável. A tal “nova ética” da qual tanto falamos também deve incluir o acesso e a escolha da informação que queremos e precisamos.

Isto é extremamente evidente no consumo de produtos culturais. Nas bancas de jornal podemos encontrar 3 publicações mensais diferentes sobre Feng Shui. Quantas publicações socioambientais estão nas bancas? Não estão nas bancas porque ninguém compra, virando grandes encalhes.

Os veículos de comunicação ambiental socioambiental sobrevivem com dificuldade porque é uma luta conquistar leitores pagantes ou assinantes e, por conseqüência, contar com apoio de anunciantes.

Enquanto isto, Caras, Chiques & Famosos, Isto É Gente, Flash, Contigo, Quem Acontece, etc., vendem muito e têm muitos (e põe muitos nisso) leitores e anunciantes. É até divertido ver como as grandes empresas investem em relevantes atividades culturais, tais como festas, casamentos, baladas, feijoadas, ilhas, camarotes, etc…

Vejamos, por exemplo, aos recentes “grandes” shows na praia. Ótimo porque é gratuito, com livre acesso à população. Bem, na verdade não é tão ótimo assim, porque o “povão” teve que chegar horas antes, ficar exposto ao sol, à chuva e ao desconforto. Nem todos, no entanto, estiveram ao relento, porque foi feita exceção aos que “brilham” na mídia. Os famosos tiveram camarote climatizado, sanitários, bufê, garçons e ainda ganharam celulares de última geração.

O povão não “brilha”, não freqüenta os camarotes dos mega-eventos sociais, mas, no entanto, é ele quem realmente sustenta as grandes empresas. Ele sustenta, mas não usufrui. É a lógica da exclusão sob a roupagem da responsabilidade social, uma versão fashion do apartheid.

A média da programação da TV sobre assuntos ‘ecológicos’ também é descompromissada, porque tende a abordar temas distantes da realidade, mas com forte significado visual, documentando paisagens paradisíacas e a “força” da natureza, sem, no entanto, motivar o telespectador a uma atitude mais reflexiva. Sempre romantizando a natureza, sempre de forma bucólica, mas distante. É uma válida estratégia editorial, para evitar a baixa audiência. Na outra ponta da realidade, o programa Repórter Eco, da TV Cultura-SP, criado e dirigido por Washinton Novaes há mais de 10 anos, apenas sobrevive porque é apoiado e veiculado em uma TV pública, mas com audiência muito restrita, incomparavelmente menor que a programação de ‘futilidade pública’.

A realidade está demonstrando que muitas pessoas estão optando pela alienação e nós não estamos colocando isto em discussão. Mas, é importante lembrar que alienação e consciência não andam juntas.

Reclamamos da perda de qualidade da programação televisiva, citando os casos Ratinho, João Kleber, e outros. Tudo bem é verdade, mas estes programas existem porque têm audiência e, se tem audiência, têm anunciantes.

A televisão (aberta e a cabo) possui vários programas de viagens-esportes radicais-aventuras, sempre visualmente bonitos e ancorados em belas modelos de biquíni. Tudo bem, o visual é ótimo, mas e daí? Talvez seja para atender à demanda de milhões de surfistas e praticantes de esportes radicais. Talvez…

Se formos sinceros, perceberemos que o problema não está na alienação de programas e matérias, mas na opção dos leitores e telespectadores. Precisamos analisar e compreender o porquê disto e a quem serve esta atitude voyeur e descompromissada.

A sociedade precisa ter acesso à informação – toda e qualquer informação. As pessoas, diante das informações disponíveis, devem optar por qual conteúdo querem. Em certa medida, este é, simplificadamente, o conceito essencial da democratização da informação.

E, exatamente em respeito ao direito de informação, a mídia de consciência deve esforçar-se por sobreviver e demonstrar à sociedade que nossa existência cumpre um relevante papel social.

De certa forma, sentimo-nos culpados porque somos chatos. Nós falamos de ética, cidadania, saúde, paternidade responsável, consumo consciente e responsável, limites, etc. Afinal, é muito mais divertido ler sobre quem está “pegando” quem ou de quem está “brilhando”.

A questão, portanto, é que, pela crescente opção pela alienação, nosso segmento de mídia caminha para a extinção, do mesmo modo como aconteceu com biomas inteiros, apesar dos inestimáveis serviços ambientais que prestavam à sociedade.

E, se isto for verdade, é nossa responsabilidade assumir um papel mais ativo no processo, valorizando a educação (com “e” maiúsculo) e motivando os leitores e telespectadores para uma compreensão mais crítica da realidade. Se formos extintos, que seja por decisão consciente da sociedade e não porque as corporações nos consideram desnecessários e “aborrecidos” e, por isto, não possuem qualquer real compromisso em apoiar, incentivar e patrocinar a democratização da informação.

O leitor tem direito a optar pela informação descompromissada, mas nós não temos direito à omissão.

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
Coordenador do Portal EcoDebate

batendo bumbo

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