Nosso modelo de desenvolvimento é insustentável ou como a economia está matando o planeta, por Henrique Cortez

[As the economy is killing the planet: a theme to be discussed by Henry Cortez]

O relatório “Special report: How our economy is killing the Earth”, publicado pela revista New Scientist, é, acima de tudo, uma provocação. Preocupa-se, acertadamente, em formular questões e motivar o debate porque, sem reflexão crítica, talvez não tenhamos futuro.

Em primeiro lugar, o artigo reconhece o obvio: nosso modelo de desenvolvimento é insustentável.

Vivemos em um planeta finito com recursos igualmente finitos, logo o conceito de desenvolvimento baseado na expansão infinita da economia não funcionará por muito tempo. Pena que, reconhecer o obvio, nem sempre seja simples.

Desde o início da era industrial, os padrões desenvolvimento foram concebidos a partir da relação produção e consumo. Deste período inicial, os conceitos de preço, valor e custo, embora diferentes, guardavam uma lógica nas suas razões e proporções.

A globalização e a finaceirização da economia criaram um modelo em que preço, valor e custo já não guardam relação entre si. Criaram, na verdade, um modelo apenas baseado no consumo desmedido e na especulação.

É esta a questão essencial colocada pelo artigo: só encontraremos a necessária sustentabilidade planetária se mudarmos o modelo de desenvolvimento e, com ele, os atuais fundamentos econômicos.

Redesenhar a economia mundial seria um feito inédito e só poderia acontecer se realizado coordenadamente por todos os países. Ou seja, não vai acontecer.

Vou usar a questão do consumo insustentável como exemplo.

O modelo produção/consumo precisa vender cada vez mais, em escala maior do que o crescimento populacional. Para isto investe pesadamente no marketing, produzindo uma onda consumista sem paralelos na história. Ao mesmo tempo, todos os produtos devem ficar obsoletos o mais rápido possível, justificando sua substituição, mesmo que desnecessária. O desperdício é incentivado e o consumo desenfreado endeusado.

É evidente que isto demanda cada vez mais recursos naturais e energia, logo, nossa pegada ecológica fica cada vez maior.

Muito bem, digamos que uma onda de regulação global tente reduzir este processo, a começar pela obrigação de reduzir a obsolescência, ao mesmo tempo em que, por programas de eficiência energética, reduz a energia agregada ao produto.

O primeiro impacto seria a redução da demanda de recursos naturais e de energia, mas, ao mesmo tempo, também reduziria a demanda industrial e, com ela, a oferta de empregos na indústria.

Menos empregos e produção também reduziriam a arrecadação de tributos, o que poderia enfraquecer toda a rede de proteção social oferecida pelos governos.

Com base no raciocínio acima, os desenvolvimentistas são ferrenhos defensores do crescimento da produção, do consumo e, evidentemente, da carga tributária.

Segundo eles, sem isto, o resultado seria uma catástrofe econômica em escala global.

Certo? Não necessariamente.

Uma grande parte deste modelo de desenvolvimento é virtual e meramente especulativo, como ficou demonstrado na atual crise financeira internacional e na crise alimentar.

Na crise alimentar ficou demonstrado que a produção de alimentos é mais do que suficiente para garantir a segurança alimentar de toda a população do planeta, mas, o modelo especulativo encarece os produtos, impedindo que os mais pobres tenham acesso aos alimentos, perpetuando o ciclo da fome.

Algo parecido acontece com os produtos e com os serviços.

Muitas empresas obtêm mais da metade de seus lucros no mercado financeiro e, para isto, tornam-se grandes investidores nas bolsas de valores. Para manter o ritmo de seus lucros buscam papeis mais lucrativos e, por conseqüência, de maior risco.

Enquanto wall street, a economia virtual, esteve desconectada de main street, a economia real, o cassino especulativo enriqueceu muita gente, mas agora, com a crise, quando os papeis perderam a gordura especulativa e retornaram ao seu valor real, a conta ficou com o contribuinte. É da essência deste capitalismo especulativo que o lucro seja privado e o prejuízo seja socializado.

É a forma ilógica da relação de preço, valor e custo que permite que um tênis que custa US$ 25 seja vendido por US$ 400. Toda a economia global possui incontáveis casos como este e, por isto, é uma economia com muito mais dígitos do que seu valor real.

Isto também permite que executivos, nos EUA, tenham um salário de US$ 17 mil por hora e que recebam generosas bonificações pelos lucros que oferecem aos acionistas, mesmo que sejam lucros meramente especulativos.

É o caso do preço do petróleo que, no último ano, variou de US$ 60 para US$ 140 e agora está reduzido à metade, sem qualquer relação real com a produção e o consumo. As variações de consumo foram irrelevantes e os grandes consumidores mundiais continuam com a mesma demanda maciça. Outro claro caso de especulação.

É isto que está em questão, o que realmente deve ser entendido como desenvolvimento, como deve ser medido e incentivado.

O relatório “Special report: How our economy is killing the Earth”, publicado pela revista New Scientist, não pretende de esgotar o tema ou propor as alternativas. Também não tenho esta pretensão, nem que seja porque, nem de longe, tenho as respostas. Alias, acho que ninguém tem.

Fica, no entanto, o alerta de que este modelo não vai funcionar por muito tempo, na exata medida em que os recursos naturais se esgotam e que as mudanças climáticas podem colocar a economia e a sociedade diante de uma catástrofe planetária.

Precisamos debater estes temas e encontrar as alternativas mais viáveis enquanto ainda temos tempo.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador do EcoDebate

Abaixo transcrevemos, no original em inglês, Special report: How our economy is killing the Earth.

Special report: How our economy is killing the Earth

New Scientist magazine, 16 October 2008, page 40-41

THE graphs climbing across these pages (see graph, right, or explore in more detail) are a stark reminder of the crisis facing our planet. Consumption of resources is rising rapidly, biodiversity is plummeting and just about every measure shows humans affecting Earth on a vast scale. Most of us accept the need for a more sustainable way to live, by reducing carbon emissions, developing renewable technology and increasing energy efficiency.

But are these efforts to save the planet doomed? A growing band of experts are looking at figures like these and arguing that personal carbon virtue and collective environmentalism are futile as long as our economic system is built on the assumption of growth. The science tells us that if we are serious about saving Earth, we must reshape our economy.

This, of course, is economic heresy. Growth to most economists is as essential as the air we breathe: it is, they claim, the only force capable of lifting the poor out of poverty, feeding the world’s growing population, meeting the costs of rising public spending and stimulating technological development – not to mention funding increasingly expensive lifestyles. They see no limits to that growth, ever.

In recent weeks it has become clear just how terrified governments are of anything that threatens growth, as they pour billions of public money into a failing financial system. Amid the confusion, any challenge to the growth dogma needs to be looked at very carefully. This one is built on a long-standing question: how do we square Earth’s finite resources with the fact that as the economy grows, the amount of natural resources needed to sustain that activity must grow too? It has taken all of human history for the economy to reach its current size. On current form it will take just two decades to double.

In this special issue, New Scientist brings together key thinkers from politics, economics and philosophy who profoundly disagree with the growth dogma but agree with the scientists monitoring our fragile biosphere. The father of ecological economics, Herman Daly, explains why our economy is blind to the environmental costs of growth (“The World Bank’s blind spot”), while Tim Jackson, adviser to the UK government on sustainable development, crunches numbers to show that technological fixes won’t compensate for the hair-raising speed at which the economy is expanding (“Why politicians dare not limit economic growth”).

Gus Speth, one-time environment adviser to President Jimmy Carter, explains why after four decades working at the highest levels of US policy-making he believes green values have no chance against today’s capitalism (“Champion for green growth”), followed by Susan George, a leading thinker of the political left, who argues that only a global government-led effort can shift the destructive course we are on (“We must think big to fight environmental disaster”).

For Andrew Simms, policy director of the London-based New Economics Foundation, it is crucial to demolish one of the main justifications for unbridled growth: that it can pull the poor out of poverty (“The poverty myth”). And the broadcaster and activist David Suzuki explains how he inspires business leaders and politicians to change their thinking (“Interview with an environmental activist”).

Just what a truly sustainable economy would look like is explored in “Life in a land without growth“, when New Scientist uses Daly’s blueprint to imagine life in a society that doesn’t use up resources faster than the world can replace them. Expect tough decisions on wealth, tax, jobs and birth rates. But as Daly says, shifting from growth to development doesn’t have to mean freezing in the dark under communist tyranny. Technological innovation would give us more and more from the resources we have, and as philosopher Kate Soper argues in “Nothing to fear from curbing growth”, curbing our addiction to work and profits would in many ways improve our lives.

It is a vision John Stuart Mill, one of the founders of classical economics, would have approved of. In his Principles of Political Economy, published in 1848, he predicted that once the work of economic growth was done, a “stationary” economy would emerge in which we could focus on human improvement: “There would be as much scope as ever for all kinds of mental culture, and moral and social progress… for improving the art of living and much more likelihood of it being improved, when minds cease to be engrossed by the art of getting on.”

Today’s economists dismiss such ideas as naive and utopian, but with financial markets crashing, food prices spiralling, the world warming and peak oil approaching (or passed), they are becoming harder than ever to ignore.

Read more:

Special report: The facts about overconsumption

The two sets of graphs, right, illustrate how human activity has changed since the beginning of the Industrial Revolution, and the impacts that our societies have had on the Earth as a whole.

All figures are taken, with the kind permission of the publishers, from:

Steffen W, Sanderson A, Tyson P D, Jäger J, Matson P, Moore III B, Oldfield F, Richardson K, Schellnhuber H-J, Turner II B L and Wasson R J (2004) Global Change and the Earth System: A Planet Under Pressure. The IGBP Book Series, Springer-Verlag, Berlin, Heidelberg, New York, 336 pp

Specific references used are as follows:

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McDonalds homepage

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World Tourism Organization (2001) Tourism industry trends. Industry Science Resources

EcoDebate

A Rio+20 e a cartinha ao Papai Noel, por Henrique Cortez

[EcoDebate] A Rio+20 não foi um fracasso pelo simples motivo que, de verdade, ninguém esperava que fosse um sucesso. Tolices e bravatas à parte, ela apenas reforçou as críticas que o modelo consensual da ONU é insuficiente para liderar as transformações que se fazem necessárias.

No entanto, em paralelo ao evento diplomático, ocorreram significativos avanços nos Major Groups e na Cúpula dos Povos.

Os chamados Major Groups, compostos por representantes da sociedade civil, concentrados em áreas temas [Negócios e Indústria / Crianças e Jovens / Agricultores / Povos Nativos / Autoridades Locais / ONGs / Comunidade Científica e Tecnológica / Mulheres / Trabalhadores e Sindicatos] trabalharam intensamente, produzindo discussões e trabalhos técnicos de suporte, que poderiam ter orientado as decisões das delegações.

Poderiam, mas ao final, foram solenemente ignorados. Nada discutido ou produzido nos Major Groups foi aproveitado no texto final. Em geral, nada aconteceria, mas desta vez, estes participantes reagiram com vigor, reafirmando que a sociedade civil lá estava para colaborar e ser ouvida.

Novamente ignorados, os participantes (pesquisadores, cientistas, ativistas, representantes de ONGs, etc…) emitiram a nota A Rio+20 que a sociedade civil não quer é a que está aí e formalmente se retiraram do plenário.

Sem respostas, os integrantes da sociedade civil subiram o tom entregando os crachás, em ato de protesto e publicando uma carta aberta contra texto final [Leia a carta da sociedade civil na íntegra, no site http://www.ipetitions.com/petition/the-future-we-dont-want/ ].

Pode parecer pouco, mas foi uma reação inédita e com repercussão internacional. Foi um importante avanço e merece destaque.

A Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, de sua parte, também merece destaque pelas discussões, pela mobilização e pelos avanços apresentados.

Foi um evento organizado pela sociedade civil global, entre os dias 15 e 23 de junho, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro – paralelamente à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD), a Rio+20.

Evento aberto, com livre acesso da população e intensas discussões públicas contra a mercantilização da vida e em defesa dos bens comuns. Milhares de pessoas visitaram a Cúpula dos Povos, acompanhando as discussões e livremente obtendo informações com centenas de ativistas.

Além dos debates, as plenárias produziram documentos com sugestões, colaborações e propostas que foram entregues ao secretário geral da ONU, Ban Ki-moon.

No âmbito dos Direitos (por justiça social e ambiental), que corresponde à Plenária 1, ficou acordado que para garantir esses direitos é preciso, dentre outras medidas, fortalecer os direitos humanos e mudar as políticas públicas, o sistema de produção capitalista que domina, oprime e promove o etnocídio das culturas populares.

Em relação à defesa dos bens comuns e à mercantilização da vida (Plenária 2), acordou-se que, para ter direito à terra e ao território, é preciso haver uma regulamentação fundiária. E a Cartografia Social, segundo as organizações participantes, é um instrumento para atingir esse objetivo. É preciso que haja políticas públicas destinadas a estruturar essas mudanças e financiar projetos socioambientais para as comunidades.

A soberania alimentar, defendida naPlenária 3, determinou que, para obtê-la, é necessário fortalecer o pequeno agricultor, o camponês e o indígena. É preciso controlar o uso de agrotóxicos em escala industrial e fortalecer o ideário da agroecologia.

Em relação a energia e às indústrias extrativas, assunto da Plenária 4, ficou acordado que as energias renováveis e de controle descentralizado são a saída para a crise energética mundial. É preciso ainda que as organizações que poluem e causam impactos ambientais negativos sejam adequadamente punidas.

Sobre o trabalho, debatido na Plenária 5, ficou decidido que a reforma agrária, a abolição do agronegócio e a negação à mercantilização da natureza são medidas importantes para regulamentar e humanizar o trabalho. A punição para a violação de direitos trabalhistas também é um dos temas defendidos pelas organizações participantes da Cúpula dos Povos.

A Declaração final da Cúpula dos Povos na Rio+20 merece uma leitura atenta, porque claramente demonstra que a sociedade civil sabe o que quer e o que é preciso fazer.

E também merecem destaques as mobilizações, destacando a Marcha das Mulheres e a Manifestação em defesa dos bens comuns e contra a mercantilização da vida.

A Marcha das Mulheres foi realizada na manhã do dia 18/6, no Centro do Rio de Janeiro e reuniu cerca 8 mil pessoas de várias partes do mundo. Este foi o primeiro ato público realizado dentro da Cúpula dos Povos

No dia 20/6, a manifestação em defesa dos bens comuns e contra a mercantilização da vida, realizada na avenida rio Branco, com a participação de estudantes e representantes de movimentos sociais, reuniu, pelo menos, 50 mil pessoas. Talvez 80 mil, de acordo com os organizadores. Pouco importa, porque 50 mil pessoas é mais do que suficiente para torná-la a mais significativa e representativa da última década.

Enfim, em paralelo à Rio+20, os avanços foram importantes e visíveis.

Quanto à Rio+20 e seu documento “O Futuro que Queremos” se não foi um retrocesso em relação à Cúpula da Terra (Eco92) certamente também não foi um avanço.

Na realidade, mais me parece com uma carta do Joãozinho ao Papai Noel:

Querido Papai Noel… Prometo que vou ser bonzinho… Prometo que não vou fazer malcriação … Prometo que vou estudar … E prometo que não vou mais bater no meu irmãozinho…

Promessas, meras promessas, mas nada de compromissos.

Os governos, representados por suas delegações, fracassaram como esperado, mas a sociedade civil, nos Major Groups e na Cúpula dos Povos, mostrou que as mudanças já começaram e vieram para ficar.

Neste aspecto, mesmo sem querer, a Rio+20 foi um sucesso.

Henrique Cortez, coordenador editorial do Portal EcoDebate, com informações da Cúpula dos Povos.

batendo bumbo

Nota: acessem as discussões nas plenárias da Cúpula dos Povos na Rio+20:

Eixo 1: Causas estruturais e falsas soluções

Eixo 2: Nossas soluções

EcoDebate

Fazendo de conta que os licenciamentos ambientais são de verdade, por Henrique Cortez

[EcoDebate] O título deste texto é menos absurdo do que pode parecer à primeira vista. Nos últimos anos, estão cada vez mais freqüentes as denúncias de EIA-RIMAs tecnicamente inconsistentes ou fraudulentamente produzidos. E isto é um problema extremamente sério.

Já é evidente que surgiu uma indústria de EIA-RIMAs pré-fabricados apenas e tão somente para atender às exigências legais mínimas. A cada dia surgem novos questionamentos sobre a veracidade destes estudos.

Neste sentido os casos das hidrelétricas de Barra Grande, no rio Madeira, de Belo Monte, da usina nuclear deAngra 3 e outros casos escandalosos. No EcoDebate a tag “licenciamento ambiental” é rica em detalhes deste problema que se agrava.

As ambientalistas Ana Echevenguá (Eco&Ação) e Telma Monteiro (Blog Telma Monteiro) são figuras importantes nas denúncias dos licenciamentos de mentirinha, tão do agrado dos grandes interesses econômicos e do governo desenvolvimentista de plantão. Em seus sítios/blogues discutem, denunciam e expõe esta “linha de montagem” de licenciamentos, com clareza e profundidade.

Este governo não consegue compreender que o processo de licenciamento ambiental é “ligeiramente” diferente da concessão de um mero alvará e por isto não suporta a idéia de que as licenças não sejam concedidas automaticamente, como se fossem meros detalhes burocráticos.

Se dependesse do voluntarismo governamental teríamos ampla e irrestrita concessão de licenças ambientais, para quaisquer atividades, sem qualquer consideração para com as questões socioambientais.

Diversos membros do primeiro círculo do poder já afirmaram que a grande fase do desenvolvimento do Brasil se deu durante os governos militares, coincidentemente uma época em que as preocupações sociais e ambientais das grandes obras simplesmente inexistiam.

Aliás, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva não cansou de elogiar os projetos dos governos militares, quando a agenda desenvolvimentista era imposta na marra.

O governo, desde o governo Lula, reclama dos ambientalistas, dos índios, dos quilombolas, dos ribeirinhos, do ministério público, do poder judiciário, dos movimentos sociais e de todos os que não concordam com esta opção pseudodesenvolvimentista. E reclama com razão, porque estes segmentos da sociedade não aceitam este modelo de desenvolvimento a qualquer custo.

Enquanto isto, a tragédia dos licenciamentos de mentirinha se agrava. Os erros e inconsistências são de tal monta que os órgãos ambientais, em muitos casos, chegam a exigir tantas condicionantes que praticamente equivalem a outro EIA.

Isto, em princípio, não seria um problema se os órgãos ambientais não estivessem sucateados, sem funcionários técnicos e com uma inadequada estrutura técnica e administrativa.

A fragilização estrutural, a falta de funcionários capacitados e corretamente qualificados e a falta de suporte de adequadas políticas públicas dificultam a avaliação técnica dos licenciamentos e abre portas aos oportunistas. Isto é um problema com mais de 10 anos e continua a se agravar.

Outra questão que está sempre presente é o abandono dos compromissos de mitigação e compensação exigidos na Licença Prévia. Os empreendedores sabem que os órgãos ambientais não conseguirão fiscalizar o cumprimento das condicionantes antes da Licença de Operação (LO) e, neste momento, não terão apoio político para revogar o licenciamento.

Aliás, nada obriga que um empreendimento seja licenciado. Diante dos impactos socioambientais o órgão licenciador pode e deve negar o licenciamento. Ok, pode e deve em tese, porque isto não acontece, nem que o governo tenha que substituir o dirigente, tal como recentemente aconteceu com um ex-presidente do Ibama em relação ao licenciamento ‘provisório’ da UHE de Belo Monte.

E a indústria de EIA-RIMAs pré-fabricados apenas piora o problema. Bem, mas o que fazer?

Já foi um grande avanço quando o IBAMA suspendeu a licença ambiental para Hidrelétrica do Baixo Iguaçu (PR) , em razão de uma ação civil pública. O empreendimento seria construído nos municípios de Capanema e Capitão Leônidas Marques, a cerca de 500 metros do Parque Nacional do Iguaçu. A ação afirma que o estudo de impacto ambiental e o relatório de impacto ambiental (EIA/Rima) têm lacunas e omissões que impedem o dimensionamento adequado dos impactos que a construção provocaria.

Em primeiro lugar, é evidente que o licenciamento existe para ser rigorosamente observado. E não existe a obrigatoriedade de licenciar toda e qualquer obra, só porque uma empresa e/ou o governo querem que assim seja.

Para isto, os órgãos ambientais, na medida do possível, já estão fazendo o que devem – analisando com rigor e critério. Ao empreendedor cabe o risco de ter a análise tão demorada quanto o EIA-RIMA for impreciso ou inconsistente. E, se for o caso, ter o licenciamento negado.

Em segundo, no caso federal, excluir do Cadastro Técnico Federal todas as empresas que tenham “produzido” estudos sem qualidade técnica. No caso de fraude ela deve ser tratada como realmente é: como crime. E , aos empreendedores, co-responsáveis no EIA-RIMA fraudulento, ficará o ônus do licenciamento negado.

E, por fim, os Conselhos Regionais, dos profissionais que subscrevem os EIA-RIMAs inconsistentes ou fraudulentos, devem apurar as responsabilidades profissionais e, definidas as responsabilidades em processos administrativos, aplicar as penalidades previstas em lei, inclusive a cassação do registro profissional.

Esta crise só terminará quando acabar a impunidade e é isto que devemos exigir.

Henrique Cortez, henriquecortez{at}ecodebate.com.br
coordenador editorial do Portal EcoDebate

EcoDebate

Segurança Alimentar Global: Manter a segurança alimentar do campo à mesa

[Por Henrique Cortez, para o EcoDebate] Problemas de segurança alimentar podem surgir em qualquer um dos múltiplos estágios de produção de alimentos, e as doenças que deles resultam muitas vezes não são detectadas ou comunicadas, segundo um novo relatório da Academia Americana de Microbiologia.

O relatório “Global Food Safety: Keeping Food Safe from Farm to Table” [Segurança Alimentar Global: manter os alimentos seguros da fazenda à mesa, em tradução livre] é baseado em uma reunião da academia em 2009. Osparticipantes do Colóquio, com experiência em microbiologia, saúde pública, ciência dos alimentos e economia, analisaram o estado atual das coisas na segurança microbiológica dos alimentos em todo o mundo.

O caminho da produção de alimentos para o consumo é cada vez mais complicada. Cada prato de comida pode conter ingredientes de vários países, cada um dos quais pode ter passado através de instalações de processamento diferentes, e podem ter sido manipuladas por atacadistas, varejistas e empresas de transporte, antes de, finalmente, chegar a prateleira do consumidor ou geladeira. Nenhuma agência regula todas as etapas deste processo.

Cada elo da cadeia de segurança alimentar se beneficiaria de uma maior investigação e, certamente, das novas tecnologias detalhadas neste relatório. Regulamentos que promovam boas práticas agrícolas e de fabricação não só ajudam a diminuir a lapsos na segurança alimentar, mas tornam mais fácil e eficaz rastrear os problemas de volta para o seu início.

A educação dos consumidores também é um componente importante da segurança alimentar. Os consumidores são muitas vezes inconscientes das práticas de manipulação segura dos alimentos, especialmente com novos produtos alimentares, recentemente introduzidos ao mercado de consumo. O consumidor, inadvertidamente, tem causado doenças transmitidas por alimentos, muitas vezes não reconhecidas como tal, muito menos sistematicamente relatadas, resultando em uma importante barreira para reduzir sua incidência, uma vez que é insuficiente o conhecimento de quais alimentos, agentes e práticas representam maiores riscos.

É muito difícil saber quantas pessoas adoecem em razão dos alimentos, que patógenos são mais difundidos ou perigosos, e onde os agentes patogénicos ‘entraram’ no sistema de de produção de alimentos. Em tal situação, para onde os esforços de prevenção, investigação e educação devem ser dirigidos?

Neste relatório, a cada passo da nossa produção de alimentos e seu complicado sistema de abastecimento é descrito, destacando pontos-chave de vulnerabilidade e deixando claro que o fornecimento de alimentos seguros é uma responsabilidade compartilhada.

A segurança alimentar é complexa e uma fonte de alimento perfeitamente segura é uma meta irreal.

No entanto, como este relatório explica que existem oportunidades para melhorar a segurança alimentar em cada etapa do processo de produção e consumo e muitas áreas onde a pesquisa pode ajudar a identificar e quantificar os riscos e gerar soluções. O relatório também identifica as vulnerabilidades de segurança alimentar que podem ser abordadas através de investimentos em novas tecnologias ou de uma educação mais eficaz.

Uma cópia completa do relatório e as recomendações adicionais podem ser encontradas no site da Academia Americana de Microbiologia in
http://academy.asm.org/images/stories/documents/Global_Food_Safety.pdf

Por Henrique Cortez, do EcoDebate,  com informações de Jim Sliwa, American Society for Microbiology