Quando o plástico biodegradável não degrada mais rápido que o polietileno convencional

sacola plástica

 

O onipresente saco de plástico é útil para transportar mantimentos e outros itens para casa da loja. No entanto, essa conveniência prejudica o meio ambiente, com detritos plásticos cobrindo a terra e os cursos de água. Os fabricantes oferecem sacolas plásticas biodegradáveis ou compostáveis, mas em muitos casos, essas alegações não foram testadas em ambientes naturais.

Agora, os pesquisadores relatam na Environmental Science & Technology da ACS que os sacos não se degradam em alguns ambientes mais rapidamente que o polietileno comum.

American Chemical Society*

Segundo a Comissão Europeia, cerca de 100 bilhões de sacolas plásticas entram no mercado da União Européia a cada ano. Muitos deles são usados apenas uma vez e depois jogados fora, jogados no chão ou soprados pelo vento em lagos ou oceanos. Além de serem feios, os detritos plásticos podem prejudicar os animais e os ecossistemas.

Alguns fabricantes de sacolas oferecem plásticos que se deterioram através das ações de microorganismos, enquanto outros usam plásticos oxi-biodegradáveis contendo aditivos pró-oxidantes para acelerar o processo. Além disso, plásticos compostáveis podem ser degradados por microorganismos sob condições gerenciadas. No entanto, essas soluções potenciais para o problema dos plásticos não foram bem estudadas em ambientes diferentes por longos períodos de tempo.

Os pesquisadores colocaram sacolas plásticas etiquetadas como biodegradáveis, oxibiodegradáveis ou compostáveis, bem como sacolas convencionais de polietileno, ao ar livre, enterraram-nas no solo ou submergiram-nas na água do mar. Além da sacola compostável no ambiente marinho, que se degradou em 3 meses, fragmentos ou amostras inteiras de cada tipo de sacola permaneceram após 27 meses. Após 3 anos no mar ou no solo, as sacolas convencionais, biodegradáveis e oxi-biodegradáveis ainda podem transportar cerca de 5 quilos de mantimentos sem rasgar.

Os pesquisadores concluíram que nenhuma das sacolas deteriorou-se de forma confiável em todos os ambientes dentro de 3 anos, e as sacolas biodegradáveis não deterioraram consistentemente mais rapidamente do que o polietileno convencional.

Os autores não reconhecem nenhuma fonte de financiamento.

Referência

Environmental Deterioration of Biodegradable, Oxo-biodegradable, Compostable, and Conventional Plastic Carrier Bags in the Sea, Soil, and Open-Air Over a 3-Year Period
Environmental Science & Technology
https://pubs.acs.org/doi/abs/10.1021/acs.est.8b06984

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

 

Quando o plástico biodegradável não degrada mais rápido que o polietileno convencional

,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/17/quando-o-plastico-biodegradavel-nao-degrada-mais-rapido-que-o-polietileno-convencional/.

‘Historicamente, o Brasil sempre chegou atrasado ao futuro. Mas agora, ao que parece, chegaremos atrasados ao passado’; Entrevista com o jornalista Henrique Cortez

”Historicamente, o Brasil sempre chegou atrasado ao futuro. Mas agora, ao que parece, chegaremos atrasados ao passado’; Entrevista com o jornalista Henrique Cortez

Por Patricia Fachin, IHU

A condução da agenda ambiental brasileira no governo Bolsonaro é ancorada em duas vertentes: a primeira visa dar continuidade ao modelo de desenvolvimento que “considera a defesa das questões ambientais como uma ameaça aos negócios e ao lucro”, e a segunda é ancorada na “visão antiestado da ultradireita, para a qual o governo não pode ‘se meter’ na vida e nos negócios de ninguém”, diz Henrique Cortez, jornalista da revista eletrônica EcoDebate, na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line.

Esse tipo de visão, explica, tem orientado a tomada de decisão na área ambiental e se manifesta na hostilidade do governo à existência e à atuação do Ibama e do ICMBio. “A primeira evidência está no Ministério do Meio Ambiente defendendo uma agenda antiambiental, reduzindo o poder e a atuação do Ibama e do ICMBio, tentando limitar e esvaziar o Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, atacando organizações da sociedade civil com importante atuação ambiental, afrouxamento do licenciamento ambiental e outras ações que considero desmonte da governança ambiental construída desde 1992”.

Entre os desmontes ambientais iniciados pelo novo governo, Cortez menciona o decreto que “extinguiu o Comitê Gestor do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável – PDRS Xingu, criado para administrar as ações socioambientais decorrentes da UHE Belo Monte”, e a proposta de revisar as Unidades de Conservação – UCs. “Dizer que as unidades de conservação foram criadas sem critério técnico é uma bravata, estúpida como tantas outras. A criação de uma Unidade de Conservação – UC é um processo técnico multidisciplinar, rigoroso e com base científica. Então por que a revisão geral? Simples. É um agrado ao desenvolvimentismo econômico mais predatório, na medida em que a redução da área das UCs permitiria aumentar a fronteira de produção agropecuária e da mineração”.

Nesta entrevista, Cortez também comenta os desafios de fazer jornalismo ambiental independente no Brasil. O jornalista está à frente do EcoDebate há 13 anos e recentemente enviou uma carta a seus leitores, comunicando que a revista eletrônica poderá ser desativada em 1º de junho deste ano, por falta de recursos financeiros.

Henrique CortezHenrique Cortez (Foto: Arquivo pessoal)

Henrique Cortez é jornalista especializado em meio ambiente, consultor em comunicação ambiental e editor do site EcoDebate.

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O governo Bolsonaro iniciou sua gestão envolvido em uma série de polêmicas acerca da agenda ambiental. Que balanço o senhor faz do modo como essa agenda está sendo tratada nos primeiros meses do governo?

Henrique Cortez – Não vejo surpresas. Desde sempre, e explicitamente na campanha eleitoral, Bolsonaro demonstrou uma visão rasa das questões socioambientais e, em razão desta visão simplista, uma clara oposição aos principais temas e políticas públicas relativas ao meio ambiente. E, até agora, o governo segue firme na desregulação e na redução das políticas conservacionistas, o que deve se aprofundar ao longo do mandato.

IHU On-Line – Em que aspectos a condução da agenda ambiental no governo Bolsonaro se aproxima e se distancia de gestões anteriores?

Henrique Cortez – O governo Bolsonaro empenha-se pelo desenvolvimentismo a qualquer custo, algo presente desde o governo Juscelino Kubitschek – JK e mais intenso nos governos militares, sob o discurso do ‘Brasil Grande’. Nos governos Lula e Dilma, este modelo desenvolvimentista também foi muito atuante, com destaque nas grandes obras e suas empreiteiras, no agronegócio, aqui entendido como o segmento exportador de commodities agropecuárias e na exportação de minérios. E este modelo está ainda mais poderoso no governo Bolsonaro.

No entanto, nos governos Lula e Dilma, as políticas de proteção social e a compreensão das demandas da sociedade permitiram a criação de freios ao modelo desenvolvimentista mais predatório. Estes freios não existem no governo Bolsonaro.

Mas a maior diferença está na questão ideológica e na adoção de conceitos da ultradireita dos EUA, da qual a ultradireita brasileira é satélite. A ultradireita dos EUA e suas milícias [1] organizadas são antigoverno e rejeitam que o governo, de qualquer forma, interfira na liberdade individual do cidadão, que no caso ambiental, refere-se ao poder regulador e fiscalizador do Estado. Então, a atual gestão, ao atacar a legislação, a fiscalização ambiental e as unidades de conservação, é coerente com esta visão.

IHU On-Line – Por que órgãos como o Ibama e o ICMBio são vistos pelo novo governo como empecilhos ao desenvolvimento?

Henrique Cortez – O atual governo é hostil à existência e atuação do Ibama e do ICMBio a partir de duas vertentes que, na prática, somam forças. De um lado, o desenvolvimentismo econômico a qualquer custo, que considera a defesa das questões ambientais como uma ameaça aos negócios e ao lucro e, de outro lado, reitero, a visão antiestado da ultradireita, para a qual o governo não pode ‘se meter’ na vida e nos negócios de ninguém.

São duas vertentes com grandes diferenças em temas econômicos, sociais e regulatórios, mas neste momento são, na prática, aliadas táticas. Sinceramente, vejo que a união da versão mais selvagem do capitalismo com a ultradireita, essencialmente ideológica, possui um grande potencial devastador.

IHU On-Line – Por que, novamente, o agronegócio tem um papel ou um poder de atuação central no governo?

Henrique Cortez – O agronegócio é atuante e poderoso há vários governos. Mas é importante ressaltar que este poder de pressão é controlado pelo segmento exportador de commodities agropecuárias e pela agroindústria, a partir de uma poderosa e crescente bancada ruralista, provavelmente a mais articulada do Congresso Nacional. Mas a questão neste governo é que a pior versão do agronegócio veio à tona.

Entendo que existem duas versões do agronegócio, como em Dr Jekyll and Mr Hyde: de um lado, Dr Jekyll, que é uma versão aceitável e, de outro, uma versão Mr Hyde, que chamo de ogronegócio, associado à violência no campo, violações de direitos humanos, trabalho escravo, desmatamento ilegal, grilagem, milícias rurais etc. No governo Bolsonaro, esta versão ogro não teme defender sua agenda, como desmantelamento da atuação dos órgãos ambientais, redução do combate ao trabalho escravo, degradante e infantil, liberação de armas e muniçõesrevisão das áreas protegidas, anistias e por aí vai. Ao que parece, até o momento, a agenda do ogronegócio avança de forma rápida e consistente.

IHU On-Line – Vários especialistas e ambientalistas têm afirmado que o governo está fazendo um “desmonte” da governança ambiental. Concorda com essa análise? Pode nos dar alguns exemplos de como esse “desmonte” está sendo feito?

Henrique Cortez – A primeira evidência está no Ministério do Meio Ambiente defendendo uma agenda antiambiental, reduzindo o poder e a atuação do Ibama e do ICMBio, tentando limitar e esvaziar o Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, atacando organizações da sociedade civil com importante atuação ambiental, afrouxamento do licenciamento ambiental e outras ações que considero desmonte da governança ambiental construída desde 1992.

Um exemplo objetivo: o governo Bolsonaro, por decreto em 7 de maio, extinguiu o Comitê Gestor do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável – PDRS Xingu, criado para administrar as ações socioambientais decorrentes da UHE Belo Monte.

IHU On-Line – Nesta semana, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, informou que o Ministério vai fazer uma revisão geral das 334 unidades de conservação no país, porque parte dessas unidades “foi criada sem nenhum tipo de critério técnico”. Como o senhor avalia esse tipo de medida?

Henrique Cortez – Na linha da questão anterior, esta é mais uma ação na direção do desmonte da governança ambiental. Dizer que as unidades de conservação foram criadas sem critério técnico é uma bravata, estúpida como tantas outras. A criação de uma Unidade de Conservação – UC é um processo técnico multidisciplinar, rigoroso e com base científica. Então por que a revisão geral?

Simples. É um agrado ao desenvolvimentismo econômico mais predatório, na medida em que a redução da área das UCs permitiria aumentar a fronteira de produção agropecuária e da mineração. E, obviamente, quanto menor a proteção, maior a devastação e o lucro.

IHU On-Line – Outra medida polêmica envolvendo o governo é a alteração do sistema de convenção de multas aplicadas pelo Ibama, através do decreto 9.760, que criou o Núcleo de Conciliação Ambiental, que pode perdoar ou revisar multas ambientais. Quais podem ser as consequências desse tipo de medida a longo prazo?

Henrique Cortez – Aqui, novamente, somam forças o desenvolvimentismo e a ultradireita. O surrado chavão da indústria de multas do Ibama e do ICMBio é absurdamente falso, porque os órgãos ambientais, de acordo com o Tribunal de Contas da União – TCU, mal conseguem arrecadar 5% das multas que aplicam. É, provavelmente, a indústria mais incapaz da galáxia.

Núcleo de Conciliação Ambiental é uma ação a mais para evitar qualquer efetividade nas multas, o que interessa ao desenvolvimentismo econômico e agrada a ultradireita ao limitar ainda mais a atuação e o exercício do poder fiscalizatório do Estado.

IHU On-Line – Que pautas ambientais deveriam ser prioritárias no país neste momento? Por quê?

Henrique Cortez – As pautas são inúmeras, mas a primeira e mais urgente está em evitar os retrocessos que ameaçam a governança ambiental construída ao longo de décadas, como corretamente alertaram os ex-ministros do Meio Ambiente, em nota pública. Foi uma importante iniciativa que deveria ser reproduzida pelos ex-ministros da Educação e da Cultura, por exemplo.

Por outro lado, falta ao ambientalismo uma grande dose de generosidade e altruísmo, no sentido de que todos devem se unir diante dos desafios. As grandes ONGs ambientais precisam compreender a importância de somarem esforços e atuarem em conjunto. Nenhum interesse individual é maior que o interesse do coletivo.

Raras organizações ambientalistas conseguem traçar uma agenda comum com outras ONGs ambientais e, principalmente, com os agentes sociais e os movimentos populares como a CPT[Comissão Pastoral da Terra], o MST [Movimento dos Sem-Terra], o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens], as organizações de defesa dos direitos humanos, dos indígenas, dos quilombolas.

Diante das ameaças ao nosso futuro comum, esta é uma dinâmica que precisa ser mudada com urgência.

IHU On-Line – Quais são as dificuldades de fazer jornalismo ambiental independente no Brasil? Que análise o senhor faz a partir da sua experiência à frente do EcoDebate há mais de uma década?

Henrique Cortez – A lista de dificuldades é imensa, mas tentarei sintetizar. A maior e mais significativa dificuldade está na viabilidade econômica da manutenção do jornalismo independente, quer seja social, ambiental ou investigativo.

Sempre foi muito difícil, mas, desde o ano passado, as dificuldades financeiras estão insuportáveis para os movimentos sociais e para a mídia independente. Vários veículos impressos e online deixaram de existir e outros seguirão pelo mesmo caminho porque não conseguem recursos mínimos para se manter.

Se defendemos a socialização da informação, não podemos depender do financiamento por parte do(a) leitor(a), quer seja por assinatura solidária, quer seja por doações.

O correto é que os veículos de comunicação sejam mantidos com recursos publicitários. Afinal, se as empresas “sustentáveis” investem milhões na mídia de futilidade pública, por que não na mídia socioambiental?

O problema é que ao capital não interessa a sobrevivência do jornalismo ambiental independente exatamente por causa desta independência, e não somos o que as empresas querem. As empresas se interessam em incentivar o consumo e não a informação e a consciência crítica da sociedade. Ou, de forma mais direta, querem que você compre, mas não pense. Então, a sobrevivência do jornalismo ambiental independente está seriamente ameaçada.

IHU On-Line – Que balanço o senhor faz da manutenção do EcoDebate no ar ao longo dos últimos 13 anos? Quais diria que foram os pontos altos e baixos nesse período?

Henrique Cortez – É difícil fazer uma avaliação isenta de seu próprio projeto editorial, mas, ainda assim, acredito que seja positivo. Aliás, qualquer experiência de democratização da informação é positiva, como qualquer experiência democrática.

Desde 2005, os temas socioambientais, quer globais, quer locais, passaram por várias fases. As discussões climáticas e da água avançaram bastante e a sociedade está mais preocupada com o assunto e as potenciais consequências futuras. E o jornalismo ambiental teve e tem um papel importante nestes avanços.

Por outro lado, em questões extremamente importantes, como saneamento, poluição e resíduos sólidos, os avanços foram mínimos. Nos temas relativos à conservação (florestal e biodiversidade) e na política de áreas protegidas, não avançamos e agora temos retrocessos já visíveis e que devem se aprofundar.

Mas e a mídia ambiental e o EcoDebate em especial nesse processo? Bem, por um lado nosso crescimento em alcance e leitores, ao longo dos anos, demonstra que o interesse em informações socioambientais confiáveis e de base científica aumentou bastante. De outro lado, ainda estamos presos ao nicho mais informado e consciente.

Esse, até agora, é um limite que toda a mídia independente encontra. A maioria da população não quer se interessar pelo que informamos.

A alienação, o descompromisso para com a realidade, é uma opção pessoal reconfortante. Consciência crítica da realidade pode ser muito ‘desconfortável’. Então, a omissão permite ficar na ‘zona de conforto’, sem maiores incômodos. E nós, da mídia socioambiental, não conseguimos ‘conversar’ com esta maioria da população.

Paciência, fazemos o que está ao nosso alcance, da melhor forma que conseguimos. O(a) leitor(a) tem direito a optar pela informação alienante e descompromissada, mas nós não temos direito à omissão.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Henrique Cortez – Acho importante que a sociedade compreenda que nosso futuro comum está ameaçado, como podemos ver nas ações do governo Bolsonaro nas questões sociais, de direitos humanos, previdenciárias, ambientais, culturais e nas políticas educacionais.

A intolerância, o preconceito, o negacionismo climático, a rejeição à ciência, ao conhecimento e à cultura, a misoginia, o revisionismo histórico sempre desqualificam o debate e a difusão de ideias, insistindo nos discursos rasos, chavões, frases de efeito e bravatas. É a estratégia deste governo.

Mas não é preciso genialidade para compreender que um projeto de país não é construído a partir de discursos rasos, chavões, frases de efeito e bravatas. Que futuro será construído com retrocessos?

A caminho da segunda década do século XXI, vemos a defesa de ideias que já eram equivocadas na primeira metade do século XX. Historicamente, o Brasil sempre chegou atrasado ao futuro. Mas agora, ao que parece, chegaremos atrasados ao passado…

 

Nota:

[1] Movimento de milícias nos Estados Unidos, Wikipédia, a enciclopédia livre. (Nota do entrevistado)

 

(EcoDebate, 16/05/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

Com as mudanças climáticas, pequenos aumentos na precipitação podem causar uma extensa interrupção das estradas

inundação
Foto: EBC

 

Novo modelo incorpora dados topográficos para previsão mais precisa de interrupção de estradas

Por Mary L. Martialay*

À medida que mais chuvas caem em um planeta em aquecimento, um novo modelo de computador mostra que talvez não seja necessário uma chuva para causar perturbações generalizadas nas redes rodoviárias. O modelo combinou dados sobre redes rodoviárias com as colinas e vales de topografia para revelar “pontos de inflexão” nos quais mesmo pequenos aumentos localizados na chuva causam interrupções generalizadas nas estradas.

As descobertas, que foram testadas usando dados do impacto do furacão Harvey na área de Houston, foram publicadas na Nature Communications .

“Para nos prepararmos para a mudança climática, precisamos saber onde as inundações levam às maiores perturbações nas rotas de transporte. A ciência em rede normalmente aponta para as maiores interações, ou para as rotas mais pesadamente percorridas. Não é o que vemos aqui ”, disse Jianxi Gao , professor assistente de ciência da computação no Rensselaer Polytechnic Institute e principal autor do estudo. “Um pequeno dano induzido por inundação pode causar falhas generalizadas abruptas.”

Gao, um cientista de rede, trabalhou com cientistas ambientais na Universidade Normal de Pequim e um físico na Universidade de Boston para reconciliar modelos tradicionais de ciência de rede que prevêem como rupturas específicas impactam uma rede rodoviária com modelos de ciência ambiental que predizem como a topografia influencia as inundações. A ciência tradicional da rede prevê níveis contínuos de dano, e nesse caso, derrubar estradas secundárias ou interseções causaria apenas pequenos danos à rede. Mas por causa de como a água flui sobre a terra, a adição de informações topográficas produz uma previsão mais precisa.

Na Flórida, um aumento de 30mm para 35mm de chuva derrubou 50% da rede rodoviária. E em Nova York, Gao descobriu que o escoamento maior que 45 mm isolava a parte nordeste do estado do interior dos Estados Unidos.

Na província de Hunan, na China, um aumento de 25 para 30 mm de chuva derrubou 42% da rede rodoviária provincial. Na província de Sichuan, o aumento de chuvas de 95mm para 100mm bateu 48,7% da rede rodoviária provincial. E no geral, e um aumento de 160 mm para 165 mm de chuva derrubou 17,3% da rede rodoviária na China e abruptamente isolou a parte ocidental da China continental.

Os pesquisadores validaram seu modelo comparando os resultados previstos com as interrupções de estradas observadas em Houston e no sudeste do Texas causadas pelo furacão Harvey. Seu modelo previu 90,6 por cento dos fechamentos de estradas relatados e 94,1 por cento das ruas inundadas relatadas.

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Com as mudanças climáticas, pequenos aumentos na precipitação podem causar uma extensa interrupção das estradas

,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/15/com-as-mudancas-climaticas-pequenos-aumentos-na-precipitacao-podem-causar-uma-extensa-interrupcao-das-estradas/.

Comparação de Climatologias Oceânicas confirma aquecimento do oceano global

Aquecimento do oceano global

O oceano global representa o componente mais importante do sistema climático da Terra. Os oceanos acumulam energia térmica e transportam o calor dos trópicos para latitudes mais altas, respondendo muito lentamente às mudanças na atmosfera.

Institute of Atmospheric Physics, Chinese Academy of Sciences*

As climatologias digitais das grades do oceano global fornecem informações básicas úteis para muitas aplicações oceanográficas, geoquímicas e biológicas. Como tanto o oceano global quanto a base de observação estão mudando, atualizações periódicas das climatologias oceânicas são necessárias, o que está de acordo com as recomendações da Organização Meteorológica Mundial para fornecer atualizações decadais das climatologias atmosféricas.

“A construção de climatologias oceânicas consiste em várias etapas, incluindo controle de qualidade de dados, ajustes para vieses instrumentais e preenchimento das lacunas de dados por meio de um método de interpolação adequado”, diz o professor Viktor GOURETSKI, da Universidade de Hamburgo. O Prof. GOURETSKI é bolsista da Iniciativa de Bolsas Internacionais do Presidente da Academia Chinesa de Ciências (PIFI) no Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências e autor de um relatório recentemente publicado na Atmospheric and Oceanic Science Letters .

“A água do mar é essencialmente um sistema de dois componentes, com uma dependência não-linear da densidade na temperatura e salinidade, com a mistura no interior do oceano ocorrendo predominantemente ao longo de superfícies isópicas. Portanto, a interpolação dos parâmetros oceânicos deve ser realizada em isopirnais níveis isobáricos, para minimizar a produção de massas de água artificiais.As diferenças entre estes dois métodos de interpolação de dados são mais pronunciadas nas regiões de alto gradiente como a Corrente do Golfo, Kuroshio e Corrente Circumpolar Antártica “, continua o Professor GOURETSKI.

Em seu recente relatório, o professor GOURETSKI apresenta um novo Experimento de Circulação do Oceano Mundial / Climatologia Hidrográfica Global ARGO (WAGHC), com média de temperatura e salinidade em superfícies isopiteliais locais. Com base em dados de bordo de alta qualidade e perfis de temperatura e salinidade dos flutuadores ARGO, a nova climatologia tem uma resolução mensal e está disponível em uma grade de latitude a 1/4 ° de longitude.

 

Aquecimento do oceano global entre 1984 e 2009
Aquecimento do oceano global entre 1984 e 2009, como visto na seção média zonal da diferença de temperatura entre as climatologias oceânicas globais WAGHC e WOA13. (Imagem de Viktor GOURETSKI)

 

“Comparamos a climatologia WAGHC com a climatologia quadriculada WOA13 da NOAA. Essas climatologias representam produtos digitais alternativos, mas a WAGHC se beneficiou da adição de novos dados de flutuação ARGO e dados hidrográficos das regiões da Polar Norte”, diz o professor GOURETSKI. “As duas climatologias caracterizam os estados oceânicos médios com 25 anos de diferença, e a seção média zoneada da diferença de temperatura WAGHC-menos-WOA13 mostra claramente o sinal de aquecimento oceânico, com um aumento médio de temperatura de 0,05 ° C para os 1500-m superiores camada desde 1984 “.

Referência:

Viktor GOURETSKI (2019) A new global ocean hydrographic climatology, Atmospheric and Oceanic Science Letters, DOI: 10.1080/16742834.2019.1588066. https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/16742834.2019.1588066

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Comparação de Climatologias Oceânicas confirma aquecimento do oceano global

,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/13/comparacao-de-climatologias-oceanicas-confirma-aquecimento-do-oceano-global/.

Incêndios florestais aceleram o derretimento da neve no oeste dos EUA

 

Os incêndios florestais estão causando o derretimento da neve no início da temporada, uma tendência que afeta o abastecimento de água e provoca ainda mais incêndios, de acordo com um novo estudo de uma equipe de pesquisadores da Portland State University (PSU), Desert Research Institute (DRI) e University of Nevada, Reno.

É um ciclo que só será exacerbado à medida que a frequência, duração e gravidade dos incêndios florestais aumentam com um clima mais quente e seco.

Por Cristina Rojas*

 

Incêndios florestais aceleram o derretimento da neve no oeste dos EUA
Kelly Gleason e sua equipe em uma floresta recentemente queimada para coletar amostras de neve. (Crédito da foto: Christina Aragon | PSU)

 

O estudo, publicado em 2 de maio na revista Nature Communications , fornece uma nova visão sobre a magnitude e a persistência do incêndio florestal em recursos críticos de água de neve.

Os pesquisadores descobriram que mais de 11% de todas as florestas do oeste estão sofrendo com o derretimento do gelo e da neve como resultado de incêndios.

A equipe utilizou medições laboratoriais de última geração em amostras de neve, realizadas no Laboratório Analítico de Núcleos de Gelo Ultra-Trace da DRI em Reno, Nevada, bem como transferência radiativa e modelagem geoespacial para avaliar os impactos de incêndios florestais na neve por mais do que uma década após um incêndio. Eles descobriram que não só a neve derretia uma média cinco dias antes depois de um incêndio, como antes, em todo o Ocidente, mas o tempo acelerado do derretimento da neve continuou por até 15 anos.

“Este efeito de fogo no início do derretimento do gelo é generalizado em todo o Ocidente e é persistente por pelo menos uma década após o incêndio”, disse Kelly Gleason, principal autor e professor assistente de ciência e administração ambiental da Faculdade de Artes Liberais e Ciências da PSU.

Gleason, que conduziu a pesquisa como bolsista de pós-doutorado no Instituto de Pesquisa do Deserto, e sua equipe citam duas razões para o derretimento de neve anterior.

Primeiro, a sombra proporcionada pela copa das árvores é removida por um incêndio, permitindo que mais luz solar atinja a neve. Em segundo lugar e mais importante, a fuligem – também conhecida como carbono negro – e a madeira carbonizada, casca e detritos deixados para trás de um incêndio escurecem a neve e diminuem sua refletividade. O resultado é como a diferença entre usar uma camiseta preta em um dia ensolarado em vez de uma branca.

Nos últimos 20 anos, houve um aumento de quatro vezes na quantidade de energia absorvida pela neve devido a incêndios em todo o oeste.

“A neve é tipicamente muito reflexiva, e é por isso que parece branca, mas apenas uma pequena mudança no albedo ou refletividade da superfície da neve pode ter um impacto profundo na quantidade de energia solar absorvida pela camada de neve”, disse Joe. McConnell, professor de pesquisa de hidrologia e chefe do Laboratório Analítico de Núcleo de Gelo Ultra-Trace na DRI. “Esta energia solar é um fator-chave para o derretimento da neve”.

Para os estados ocidentais, que dependem de depósitos de neve e seu escoamento em córregos e reservatórios locais de água, o derretimento precoce do gelo pode ser uma grande preocupação.

“O volume de neve acumulada e o momento do degelo são os condutores dominantes de quanta água existe e quando a água está disponível a jusante”, disse Gleason. “O momento é importante para as florestas, os peixes e como alocamos as operações dos reservatórios; no inverno, tendemos a controlar as inundações, enquanto no verão, tentamos retê-las.”

O início do derretimento do gelo também deve alimentar incêndios maiores e mais severos em todo o Ocidente, disse Gleason.

“A neve já está derretendo mais cedo por causa da mudança climática”, disse ela. “Quando derrete mais cedo, está causando incêndios maiores e mais duradouros na paisagem. Esses incêndios então têm um feedback sobre a própria neve, provocando um degelo ainda mais cedo, que então causa mais incêndios. É um ciclo vicioso.”

Gleason continuará a desenvolver essa pesquisa em seu laboratório na PSU. Ela está no primeiro ano de uma concessão da NASA que examinará os efeitos dos incêndios florestais no albedo da neve, ou quanta energia solar sua superfície reflete de volta na atmosfera.

Referência:

Four-fold increase in solar forcing on snow in western U.S. burned forests since 1999
Kelly E. Gleason, Joseph R. McConnell, Monica M. Arienzo, Nathan Chellman & Wendy M. Calvin
Nature Communications volume 10, Article number: 2026 (2019)
https://doi.org/10.1038/s41467-019-09935-y

Link no formato PDF: https://rdcu.be/bAeSn

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Incêndios florestais aceleram o derretimento da neve no oeste dos EUA

,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 9/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/09/incendios-florestais-aceleram-o-derretimento-da-neve-no-oeste-dos-eua/.

 

Educação climática para crianças aumenta as preocupações dos pais com as mudanças climáticas

crianças cuidando do planeta

 

Um novo estudo descobriu que educar as crianças sobre o clima aumenta as preocupações dos pais sobre as mudanças climáticas.

North Carolina State University*

Para o estudo, os pesquisadores trabalharam com professores de ciências do ensino médio para incorporar um currículo de mudança climática em suas salas de aula. Antes de ensinar o currículo, os pesquisadores tiveram 238 alunos e 292 pais fizeram uma pesquisa para medir seus níveis de preocupação com relação à mudança climática.

Setenta e dois dos estudantes e 93 dos pais estavam em um grupo de controle, ou seja, os alunos não receberam o currículo de mudança climática; 166 alunos e 199 pais estavam em um grupo experimental, ou seja, os alunos receberam o currículo climático. Todos os alunos e pais voltaram a fazer a pesquisa depois que os alunos do grupo experimental completaram o currículo climático.

A pesquisa de clima mediu a preocupação em uma escala de 17 pontos, variando de -8 (não preocupada a todos) a +8 (extremamente preocupada). Em média, os alunos do grupo de controle tiveram um aumento de preocupação de 0,72 pontos na segunda pesquisa, enquanto seus pais aumentaram 1,37 pontos. Enquanto isso, os alunos do grupo experimental tiveram um aumento de 2,78 pontos, enquanto seus pais aumentaram 3,89 pontos.

Em média, o nível de preocupação dos pais conservadores aumentou 4,77 pontos; pais de filhas aumentaram 4,15 pontos; e os pais aumentaram 4,31 pontos. Todos esses grupos-chave deixaram de ser marginalmente insatisfeitos (-2,1 para conservadores, -1,8 para aqueles com filhas e -0,9 para pais, comparado a um ponto médio zero) para moderadamente preocupados (2,5 para conservadores, 2,5 para aqueles com filhas e 3,6 para pais). Esses níveis de preocupação pós-teste foram muito mais altos do que os do grupo controle (conservadores: 0,25; aqueles com filhas: -1,6; pais: -0,8).

Notavelmente, pais liberais e conservadores no grupo de tratamento acabaram com níveis semelhantes de preocupação com a mudança climática ao final do estudo. O intervalo de 4,5 pontos no pré-teste diminuiu para 1,2 depois que as crianças aprenderam sobre a mudança climática.

Referência:

Children can foster climate change concern among their parents
Danielle Lawson, Kathryn Stevenson, Nils Peterson, Sarah Carrier, Renee Strnad and Erin Seekamp, North Carolina State University
Nature Climate Change (2019) in https://www.nature.com/articles/s41558-019-0463-3
DOI: 10.1038/s41558-019-0463-3

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Educação climática para crianças aumenta as preocupações dos pais com as mudanças climáticas

,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 8/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/08/educacao-climatica-para-criancas-aumenta-as-preocupacoes-dos-pais-com-as-mudancas-climaticas/.

Estudo indica que a caça compromete a capacidade de armazenamento de carbono das florestas

 

A perda de animais, muitas vezes devido à caça ilegal ou não regulamentada, tem consequências para a capacidade de armazenamento de carbono das florestas, mas esta ligação é raramente mencionada nas discussões sobre políticas climáticas de alto nível, segundo um novo estudo da Universidade de Lund.

Lund University Centre for Sustainability Studies*

 

Onça-pintada
Onça-pintada. Foto: EBC

 

Muitas espécies de animais selvagens desempenham um papel fundamental na dispersão das sementes de árvores tropicais, particularmente espécies de árvores de sementes grandes, que em média têm uma densidade de madeira ligeiramente maior do que as árvores de sementes pequenas. A perda de vida selvagem, portanto, afeta a sobrevivência dessas espécies de árvores – por sua vez, afetando potencialmente a capacidade de armazenamento de carbono das florestas tropicais.

A fauna florestal também está envolvida em muitos outros processos ecológicos, incluindo polinização, germinação, regeneração e crescimento de plantas e ciclos biogeoquímicos. Estudos empíricos nos trópicos mostraram que a defaunação (isto é, a extinção da vida selvagem induzida pelo homem) pode ter efeitos em cascata na estrutura e dinâmica da floresta.

A sustentabilidade da caça é questionável em muitos locais e, particularmente, espécies maiores são rapidamente exauridas quando a caça abastece os mercados urbanos com carne de animais silvestres.

O estudo avaliou em que medida a ligação entre defaunação e capacidade de armazenamento de carbono foi abordada na governança florestal contemporânea, com foco em um mecanismo específico, denominado Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação Florestal (REDD +).

Os resultados mostram que, embora os documentos de políticas de alto nível reconheçam a importância da biodiversidade, e os planos de projetos subnacionais mencionam a fauna e a caça de forma mais explícita, a caça como um fator de degradação florestal é apenas raramente reconhecida. Além disso, a ligação entre a fauna e a função do ecossistema florestal não foi mencionada em documentos internacionais ou nacionais.

Em vez de uma supervisão, isso pode representar uma escolha política deliberada para evitar adicionar mais complexidade às negociações e implementação de REDD +. Isso pode ser atribuído ao desejo de evitar os custos de transação de assumir esses “complementos” adicionais em um processo de negociação que já foi complexo e demorado.

“Embora a biodiversidade tenha passado de uma questão secundária para uma característica inerente na última década, mostramos que as funções ecológicas da biodiversidade ainda são mencionadas apenas superficialmente”, diz Torsten Krause, professor sênior associado do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Universidade de Lund, na Suécia. .

“No nível subnacional, a fauna e a caça eram muito mais prováveis de serem mencionadas nos documentos do projeto, mas ainda não encontramos nenhuma menção explícita de uma ligação entre a defaunação e a capacidade de armazenamento de carbono”, acrescenta.

O estudo demonstra que a defaunação é praticamente negligenciada nas negociações climáticas internacionais e na governança florestal.

“A suposição de que a cobertura florestal e a proteção do habitat é igual à conservação efetiva da biodiversidade é enganosa e deve ser questionada”, diz Martin Reinhardt Nielsen, professor associado do Departamento de Economia de Alimentos e Recursos da Universidade de Copenhague, Dinamarca.

“O fato de a defaunação e particularmente a perda de grandes dispersores de sementes por meio de caça insustentável ter repercussões duradouras em todo o ecossistema florestal deve ser reconhecida e considerada amplamente na governança florestal, ou nos arriscamos a perder a floresta para as árvores”, conclui.

Referência:

Not Seeing the Forest for the Trees: The Oversight of Defaunation in REDD+ and Global Forest Governance
Torsten Krause and Martin Reinhardt Nielsen
Forests 2019, 10(4), 344; https://doi.org/10.3390/f10040344

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

“Estudo indica que a caça compromete a capacidade de armazenamento de carbono das florestas,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 7/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/07/estudo-indica-que-a-caca-compromete-a-capacidade-de-armazenamento-de-carbono-das-florestas/.

Os extremos climáticos explicam 18% a 43% das variações globais do rendimento das culturas

 

Pesquisadores da Austrália, Alemanha, Suíça e Estados Unidos quantificaram o efeito de extremos climáticos, como secas ou ondas de calor, na variabilidade de produção de culturas básicas em todo o mundo.

University of New South Wales*

No geral, as mudanças ano-a-ano nos fatores climáticos durante a estação de crescimento do milho, arroz, soja e trigo representaram de 20% a 49% das flutuações de rendimento, de acordo com pesquisa publicada na Environmental Research Letters.

Os extremos climáticos, tais como temperaturas extremas de calor e frio, secas e fortes precipitações, por si só representaram 18% -43% dessas variações interanuais no rendimento das culturas.

Para chegar ao fundo dos impactos dos extremos climáticos sobre os rendimentos agrícolas, os pesquisadores usaram um banco de dados agrícola global em alta resolução espacial e conjuntos de dados climáticos e climáticos de cobertura quase global. Eles aplicaram um algoritmo de aprendizado de máquina, a Random Forests, para descobrir quais fatores climáticos tiveram o maior papel em influenciar o rendimento das culturas.

“Curiosamente, descobrimos que os fatores climáticos mais importantes para anomalias de produção estavam relacionados à temperatura, e não à precipitação, como seria de esperar, com a temperatura média da estação de crescimento e extremos de temperatura exercendo um papel dominante na previsão do rendimento das colheitas”, disse o autor. Elisabeth Vogel, do Centro de Excelência para Extremos Climáticos e Colégio de Clima e Energia da Universidade de Melbourne.

A pesquisa também revelou hotspots globais – áreas que produzem uma grande proporção da produção agrícola mundial, mas são mais suscetíveis à variabilidade climática e extremos.

 

hotspots globais - áreas que produzem uma grande proporção da produção agrícola mundial, mas são mais suscetíveis à variabilidade climática e extremos

 

“Descobrimos que a maioria desses hotspots – regiões que são críticas para a produção global e, ao mesmo tempo, fortemente influenciadas pela variabilidade climática e pelos extremos climáticos – parecem estar em regiões industrializadas de produção agrícola, como a América do Norte e a Europa.”

Para os extremos climáticos, especificamente, os pesquisadores identificaram a América do Norte para a produção de soja e trigo de primavera, a Europa para o trigo de primavera e a Ásia para a produção de arroz e milho como hotspots.

Mas, como os pesquisadores apontam, os mercados globais não são a única preocupação. Fora dessas grandes regiões, em regiões onde as comunidades são altamente dependentes da agricultura para sua subsistência, o fracasso desses cultivos básicos pode ser devastador.

“Em nosso estudo, descobrimos que a produção de milho na África mostrou uma das relações mais fortes com a variabilidade climática da estação em crescimento. De fato, foi a segunda maior variância explicada para a safra de qualquer combinação cultura / continente, sugerindo que é altamente dependente das condições climáticas ”, disse Vogel.

“Embora a participação da África na produção mundial de milho possa ser pequena, a maior parte dessa produção é destinada ao consumo humano – comparado a apenas 3% na América do Norte -, tornando-a crítica para a segurança alimentar na região.”

“Com a mudança climática prevista para alterar a variabilidade do clima e aumentar a probabilidade e a severidade dos extremos climáticos na maioria das regiões, nossa pesquisa destaca a importância de adaptar a produção de alimentos a essas mudanças”, disse Vogel.

“Aumentar a resiliência aos extremos climáticos requer um esforço conjunto nos níveis local, regional e internacional para reduzir os impactos negativos para os agricultores e comunidades que dependem da agricultura para sobreviver”.

Referência:

Elisabeth Vogel, Markus G Donat, Lisa V Alexander, Malte Meinshausen, Deepak K Ray, David Karoly, Nicolai Meinshausen, Katja Frieler. The effects of climate extremes on global agricultural yields. Environmental Research Letters, 2019; 14 (5): 054010 DOI: 10.1088/1748-9326/ab154b
http://dx.doi.org/10.1088/1748-9326/ab154b

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez.

“Os extremos climáticos explicam 18% a 43% das variações globais do rendimento das culturas,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/06/os-extremos-climaticos-explicam-18-a-43-das-variacoes-globais-do-rendimento-das-culturas/.

Biodiversidade do planeta avança em direção à crise de extinção – 1 milhão de espécies em risco

 

A diversidade de vida em nosso planeta está se deteriorando muito mais rapidamente do que se pensava anteriormente, com até 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção, muitas das quais poderiam se perder “dentro de décadas”, conclui uma nova avaliação científica divulgada segunda-feira em Paris.

 

Aplicação de agrotóxicos
Aplicação de agrotóxicos. Foto: Shutterstock

 

Por Andrew Freedman*, Axios

Por que é importante: O relatório, da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), descobriu que fatores como mudança no uso da terra, sobrepesca, poluição, mudança climática e crescimento populacional estão levando a natureza à beira do abismo. Somente a “mudança transformacional” na maneira como a sociedade opera pode nos colocar de volta no caminho para atingir as metas globais de desenvolvimento sustentável, que quase todos os países da Terra se comprometeram a realizar, conclui o relatório.

Mostre menos

O quadro geral: as conclusões do IPBES chegam a ser o primeiro relatório global sobre o estado da natureza e visam fazer com que formuladores de políticas, ativistas e outros coloquem a perda de biodiversidade em uma posição mais alta na lista de prioridades globais.

  • A biodiversidade, que é a diversidade dentro das espécies, entre as espécies e os ecossistemas, está declinando no ritmo mais rápido da história humana, segundo o relatório.
  • Embora muitas das descobertas do relatório sejam sombrias, elas vêm com um pouco de esperança: ainda há tempo para evitar o futuro que ele projeta. Por exemplo, quase 100 grupos em todo o mundo estão trabalhando para designar 30% da superfície da Terra para proteção até 2030 e 50% até 2050, em um esforço para evitar a extinção de muitas espécies marinhas.

Pelos números:

  • 8 milhões: Número total estimado de espécies de plantas e animais na Terra (inclui insetos).
  • Até 1 milhão: Número total de espécies ameaçadas de extinção.
  • Dezenas a centenas de vezes: “A medida em que a atual taxa global de extinção de espécies é maior em comparação com a média dos últimos 10 milhões de anos”. Esta taxa está acelerando, o relatório encontra.
  • 40%: espécies de anfíbios ameaçadas de extinção.
  • 25%: “Proporção média de espécies ameaçadas de extinção nos grupos terrestres, de água doce e vertebrados marinhos, invertebrados e plantas que foram estudadas com detalhes suficientes.”
  • 145: Número de autores de relatórios de 50 países nos últimos 3 anos.
  • 310: Contribuindo autores para o relatório.
  • 15.000: fontes científicas, governamentais e indígenas que entraram neste relatório.
  • 130: Governos membros do IPBES, incluindo os Estados Unidos.

O que eles estão dizendo?

  • “Estamos erodindo as próprias fundações de nossas economias, meios de subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida em todo o mundo”, disse Robert Watson, presidente da avaliação do IPBES, em um comunicado. “O relatório também nos diz que não é tarde demais para fazer a diferença, mas apenas se começarmos agora em todos os níveis, do local ao global”.
  • “A rede essencial e interconectada da vida na Terra está ficando menor e cada vez mais desgastada”, disse o co-presidente do estudo e biólogo Josef Settele, em um comunicado.

Detalhes: O relatório recomenda uma série de mudanças em grande escala na forma como administramos nossas terras e mares, e afirma que a mudança transformadora por si só pode colocar o mundo em um curso mais sustentável até 2050.

Segundo Watson, que trabalhou como consultor científico para os governos dos EUA e do Reino Unido e presidiu o painel climático da ONU, o relatório define mudança transformadora como: “Uma reorganização fundamental em todo o sistema entre fatores tecnológicos, econômicos e sociais, incluindo paradigmas”. , objetivos e valores “.

Seja esperto: este relatório provavelmente será descartado por alguns como apenas outro em uma longa linha de terríveis previsões ambientais. Mas seu pedido de mudança sistêmica, ao invés de avanços incrementais, provavelmente dará um impulso aos movimentos ativistas que agora ganham força em todo o mundo, particularmente em torno da mudança climática.

Um desses grupos, que é principalmente ativo na Europa, é apropriadamente chamado para essa tarefa: Rebelião da Extinção .

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez

“Biodiversidade do planeta avança em direção à crise de extinção – 1 milhão de espécies em risco,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 6/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/06/biodiversidade-do-planeta-avanca-em-direcao-a-crise-de-extincao-1-milhao-de-especies-em-risco/.

Quase metade dos sítios do Patrimônio Mundial Natural pode perder suas geleiras até 2100

As geleiras devem desaparecer completamente de quase metade dos sítios do Patrimônio Mundial, se continuarem as emissões de acordo com o primeiro estudo global sobre as geleiras do Patrimônio Mundial.

Os locais abrigam algumas das geleiras mais icônicas do mundo, como a Grosser Aletschgletscher, nos Alpes Suíços, a Geleira Khumbu, no Himalaia, e a Jakobshavn Isbrae, na Groenlândia.

American Geophysical Union – AGU*

O estudo na revista AGU Earth’s Future e co-autoria de cientistas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), combina dados de um inventário geleira global, uma revisão da literatura existente e modelagem de computador sofisticado para analisar o estado atual do mundo As glaciares patrimoniais, sua evolução recente e sua massa projetada mudam ao longo do século XXI.

Os autores preveem a extinção das geleiras até 2100 sob um cenário de alta emissão em 21 dos 46 sítios naturais do Patrimônio Mundial, onde as geleiras são encontradas atualmente. Mesmo sob um cenário de baixa emissão, oito dos 46 locais do patrimônio mundial será livre de gelo até 2100. O estudo também espera que 33 por cento a 60 por cento do volume total de gelo presente em 2017 serão perdidos em 2100, dependendo da emissão cenário.

“Perder essas geleiras icônicas seria uma tragédia e teria grandes consequências para a disponibilidade de recursos hídricos, aumento do nível do mar e padrões climáticos”, disse Peter Shadie, diretor do Programa do Patrimônio Mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza. “Esse declínio sem precedentes também poderia comprometer a listagem dos locais em questão na lista do Patrimônio Mundial. Os Estados devem reforçar seus compromissos para combater as mudanças climáticas e intensificar os esforços para preservar essas geleiras para as gerações futuras ”.

Várias paisagens icônicas encontradas em sítios do Patrimônio Mundial serão afetadas pelo aumento das temperaturas.

* O Parque Nacional Los Glaciares, na Argentina, contém algumas das maiores geleiras do planeta e uma perda muito grande de gelo – cerca de 60% do volume atual – está prevista para 2100 neste local.

* Na América do Norte, o Parque da Paz Internacional Waterton Glacier, os Parques Canadenses das Montanhas Rochosas e o Parque Nacional Olímpico também poderiam perder mais de 70% de seu atual gelo glacial até 2100, mesmo sob emissões de dióxido de carbono drasticamente reduzidas.

* Na Europa, o desaparecimento de pequenas geleiras é projetado no sítio do Patrimônio Mundial dos Pyrénées – Mont Perdu antes de 2040.

* Te Wahipounamu – Sudoeste da Nova Zelândia, que contém três quartos das geleiras da Nova Zelândia, deverá perder de 25% a 80% do atual volume de gelo ao longo deste século.

Além desses resultados alarmantes, os autores enfatizam o papel fundamental que as geleiras desempenham para os ecossistemas e as sociedades em escala global. A conservação das geleiras poderia, assim, servir como um gatilho para enfrentar a questão sem precedentes da mudança climática.

“Para preservar essas geleiras icônicas encontradas em sítios do Patrimônio Mundial, precisamos urgentemente de cortes significativos nas emissões de gases de efeito estufa. Esta é a única maneira de evitar o declínio glaciário irreversível e duradouro e as principais conseqüências naturais, sociais, econômicas e migratórias relacionadas à cascata ”, diz Jean-Baptiste Bosson, assessor científico do programa Patrimônio Mundial da IUCN e principal autor do novo estudo . “O estudo sobre o declínio das geleiras enfatiza ainda mais a necessidade de ações individuais e coletivas para alcançar as aspirações de mitigação e adaptação do Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas”.

A mudança climática é a ameaça que mais cresce para os sítios naturais do Patrimônio Mundial, de acordo com o relatório Perspectiva do Patrimônio Mundial da IUCN , com o número de sites ameaçados pelas mudanças climáticas dobrando entre 2014 e 2017.

Os autores do estudo também desenvolveram o primeiro inventário de glaciares da lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, documentando cerca de 19.000 glaciares presentes em 46 dos 247 sítios naturais do Patrimônio Mundial.

 

Local do patrimônio mundial natural do parque nacional de Huascarán no Peru
Local do patrimônio mundial natural do parque nacional de Huascarán no Peru. Crédito: IUCN / Elena Osipova

 

Referência:

Bosson, J.B., Huss, M., & Osipova, E. ( 2019). Disappearing World Heritage glaciers as a keystone of nature conservation in a changing climate. Earth’s Future, 7. https://doi.org/10.1029/2018EF001139

 

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

 

“Quase metade dos sítios do Patrimônio Mundial Natural pode perder suas geleiras até 2100,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 2/05/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/05/02/quase-metade-dos-sitios-do-patrimonio-mundial-natural-pode-perder-suas-geleiras-ate-2100/.