O consumo insustentável e os oceanos à beira de uma catástrofe, por Henrique Cortez

 

Nos últimos dez anos a população de atuns vermelhos diminuiu 90 por cento.Um atum de 150 quilos como este é raridade. O mais nobre dos peixes foi dizimado. Só restam peixinhos ridículos. E estão ameaçados. Foto na revista ÉPOCA.
Nos últimos dez anos a população de atuns vermelhos diminuiu 90 por cento.Um atum de 150 quilos como este é raridade. O mais nobre dos peixes foi dizimado. Só restam peixinhos ridículos. E estão ameaçados. Foto na revista ÉPOCA.

 

[EcoDebate] O rápido esgotamento dos estoques pesqueiros e a crescente degradação dos ecossistemas marinhos são temas que muitas pessoas já ouviram falar, mas, definitivamente, não se importam ou não se preocupam.

A acidificação dos oceanos, em razão do aumento da concentração do CO2 atmosférico, o aquecimento global e as mudanças climáticas ameaçam os ecossistemas marinhos e, diante da inação global, esta ameaça é crescente.

Como se não bastasse, a superexploração em razão do consumo insustentável, ameaçam os oceanos ainda mais rapidamente do que o aumento da concentração do CO2 atmosférico.

O relatório da FAO ‘The State of World Fisheries and Aquaculture 2012 ’ foi bastante noticiado, inclusive aqui no EcoDebate, mas a reação foi mínima, tanto no Brasil como nos EUA e Europa.

Como em outros temas relacionados à crise ambiental global, a maioria das pessoas prefere manter-se alheia ao problema. Não questiono a opção consumista alienada destas pessoas, mas tenho o direito de discutir que isto tem um ‘preço’, a ser pago pelas próximas gerações, nossos filhos e netos.

Segundo o relatório, 30% dos peixes do mundo são superexplorados (e podem desaparecer) e outros 57% estão próximos do limite de extração sustentável.

O relatório da FAO reafirma que a pesca comercial em grande escala já captura 80% de todas espécies oceânicas além de sua capacidade máxima de reposição e que a sobrepesca continua a crescer.

A redução dos ‘estoques’ oceânicos vem sendo compensada pela piscicultura comercial, que, de acordo com o relatório, já oferta 50% dos peixes consumidos em escala global. Em 2002 a piscicultura respondia por 1/3 da oferta.

A tendência de crescimento da piscicultura parece ser uma boa notícia, na medida em que, aparentemente, reduzirá a pressão sobre os cardumes oceânicos. Parece, mas não é.

A piscicultura precisa alimentar os peixes ao máximo, no menor tempo possível, para que atinjam tamanho e peso com valor comercial. Para isto usam rações e óleos produzidos a partir de pequenas espécies como sardinha. Estas pequenas espécies, que são de fundamental importância na cadeia alimentar, também estão sob imensa pressão de sobrepesca e a piscicultura é uma das razões.

As pequenas espécies, que, aparentemente, tem pequeno valor comercial, são intensamente capturadas para produção de rações. Um terço da captura mundial de peixe é desperdiçado na produção de ração animal, sendo que as rações preparadas a partir de peixes representam 37% (31,5 milhões de toneladas) do total de peixes retirados dos oceanos a cada ano e 90 % das capturas transformam-se em farinha e óleo de peixe. Em 2002, 46% de farinha de peixe e óleo de peixe foram utilizadas como alimento para a aqüicultura (piscicultura), 24% para alimentar porcos e 22% para a alimentação de aves.

Um terço do que acaba nas redes de pesca é jogado fora – Três em cada 10 peixes são mortos por engano e são jogados de volta na água. Todos os anos, 250 mil tartarugas são mortas pelos ganchos destinados aos peixes-espada. Mais de 70% dos estoques populacionais de peixes da Europa progressivamente são empobrecidos pelo uso excessivo das redes.

Os peixes compõem uma fração importante na nossa alimentação e seu consumo continua a aumentar em escala maior do que o aumento da população humana. É um grande mercado, pouco regulado e fiscalizado, que ainda não se preocupa com a sustentabilidade.

A indústria pesqueira mundial viola o ‘Código de Conduta para a Pesca Responsável’ da ONU, de acordo com um estudo que diz que nenhum país merece nota maior do que 6,0 em gestão de pesca. Quatro das cinco nações que mais capturam peixes tiveram nota abaixo de 5,0 num total de 10,0; Brasil ficou com conceito de 3,3

Quatro dos cinco países que mais capturam peixes em áreas costeiras no mundo -China, Peru, Japão e Chile- receberam nota abaixo de 5,0 num estudo que avaliou o grau de adesão da pesca mundial a práticas pesqueiras sustentáveis. O levantamento, que analisou os 53 países que mais pescam no mundo (e respondem por 96% do que é retirado dos oceanos), concluiu que todos têm gestão pesqueira reprovável.

Um estudo recente afirmou que a pesca em pequena escala é a melhor esperança de uma pesca sustentável, porque, em tese, a pesca em pequena escala já seria suficiente para atender a demanda de recursos pesqueiros para alimentação humana. Mas não conseguiria suprir a demanda para produção de rações para alimentação animal.

Não é à toa que o bacalhau, em 20 anos, deixará de estar nas nossas mesas. Mas quem se importa com isto, desde que esteja ‘presente’ no próximo almoço de páscoa.

Aliás, todas as 61 espécies conhecidas de atum entraram para a lista de animais ameaçados de extinção. Mas, novamente, e daí?

Estes são fatos amplamente noticiados mas, nem por isto, adquiriram importância no cotidiano da maioria das pessoas.

No Brasil, o Censo da Vida Marinha divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) indica que, das 1.209 espécies de peixes catalogadas na costa e nos estuários, 32 são sobre-exploradas. O caso dos crustáceos é ainda pior: a sobrepesca afeta 10 de 27 espécies.

A indústria pesqueira atual é insustentável, para não dizer irresponsável

Um novo componente de ameaça aos ecossistemas marinhos vem do crescimento de consumo dos suplementos alimentares a base de Ômega 3, m tipo específico de gordura encontrada mais frequentemente em peixes.

Uma parte da sobrepesca visa a produção de óleos Ômega 3, mas a redução dos ‘estoques’ pesqueiros ameaçava o crescimento vertiginoso do consumo deste óleo de peixes e a industria descobriu uma nova fonte, o krill.

Mike Adams, editor do portal NaturalNews, em interessante artigo [Questioning Krill Harvesting: Why Krill Oil Isn’t an Eco-Friendly or Sustainable Source of Marine Omega-3 Oils] questiona a sustentabilidade da produção de óleos Omega a partir da captura de krill.

O krill está na base da cadeia alimentar oceânica e, de acordo com o artigo, a sua biomassa sofreu uma redução de 80% nas últimas décadas. Ou seja, a indústria de óleos Ômega 3 encontrou uma ‘solução’ para a redução dos estoques pesqueiros que, ao longo do tempo, irá reduzir ainda mais estes estoques.

Mas e daí? Os óleos Ômega 3 são importantes para a saúde humana e quem se importa como foi produzido ou de onde ele vem?

Reafirmo que não questiono as opções de quem quer que seja, mas também reafirmo que temos a obrigação moral de reconhecer os impactos sociais, econômicos e ambientais destas opções.

Graças ao consumo insustentável de hoje, os que aqui estiverem em 2050 consumirão muito menos, simplemente porque haverá muito menos que consumir.

E esta será uma das consequências de nossas opções, inclusive de fazer de conta que os problemas não existem.

Henrique Cortez, henriquecortez@ecodebate.com.br
coordenador editorial do Portal EcoDebate

Nota do EcoDebate: Para uma melhor compreensão da dimensão da ameaça aos ecossistemas marinhos sugerimos que leiam, também, os textos abaixo relacionados, em ordem decrescente de data:

Os oceanos e sua importância para os serviços ambientais. Entrevista com Leandra Gonçalves

Aquecimento pode ser mais nocivo do que se imagina para os oceanos e para a vida marinha

‘O oceano é o coração azul do Planeta; é o que nos matém vivos; é a chave da vida’, insiste Sylvia Earle

Aumento das emissões de gases de efeito estufa podem causar US$ 2 tri danos aos oceanos

Estudo indica que mudança no pH dos oceanos pode acabar com vida marinha ainda neste século

Estoques pesqueiros estão no limite

Oceanos cada vez mais ácidos ameaçam 30% das espécies marinhas

Oceanos já estão até cem vezes mais ácidos devido a emissões de CO2

Sobrepesca e aquecimento dos oceanos ameaçam bilhões de pessoas, diz relatório do PNUD

Mudanças climáticas antropogênicas, lixo e exploração submarina ameaçam fauna e flora do fundo dos oceanos

Todas as 61 espécies conhecidas de atum entraram para a lista de animais ameaçados de extinção

Os oceanos à beira de uma catástrofe ‘sem precedentes na história humana’

Um novo estudo indica que a vida nos oceanos pode enfrentar extinção sem precedentes

Espécies comerciais pesqueiras sob o risco de colapso

Pesca insustentável: Um terço do que acaba nas redes de pesca é jogado fora

A indústria pesqueira atual é insustentável, para não dizer irresponsável

O CO2 e a crescente acidificação dos oceanos

Declínio da população de fitoplâncton ameaça cadeia alimentar marinha

EcoDebate, 16/08/2012

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Dieta saudável e responsável pode ajudar o meio ambiente

Dieta saudável e responsável pode ajudar o meio ambiente

Estudo constata que uma dieta saudável e um regresso à agricultura tradicional podem ajudar a reduzir o consumo de energia e de alimentos nos EUA.

[Por Henrique Cortez, do Ecodebate] Estima-se que 19 por cento do total da energia utilizada nos EUA é consumida na produção e distribuição de alimentos. A energia norte-americana é, majoritariamente, de origem fóssil, cada vez mais cara e escassa, além de ser a principal fonte de emissão de carbono nos Estados Unidos.

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Consumo de água engarrafada é uma tragédia ambiental, por Henrique Cortez

água engarrafada

[EcoDebate] A indústria da água engarrafada é uma das atividades que mais crescem no mundo, mesmo diante de uma grande crise financeira global. O competente marketing da indústria fixou no inconsciente das pessoas o mito de que a água engarrafada é mais segura e saudável.

Mas, se ignorarmos o mito, veremos que consumir água engarrafada, onde a água da rede é tratada e potável, é uma injustificável insanidade ambiental.

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O consumo crescente de peixes pode ser saudável, mas não é sustentável

Pesca no golfo do Maine, EUA. Foto da National Geographic Society
Pesca no golfo do Maine, EUA. Foto da National Geographic Society

[Por Henrique Cortez, do EcoDebate] A cada dia lemos mais artigos, reportagens e documentos de recomendam o aumento do consumo diário de peixes, tendo em vista os seus benefícios para a saúde, mas isto pode ser insustentável, diante da crescente sobrepesca. É o que afirmam dois novos estudos “Are dietary recommendations for the use of fish oils sustainable?“, publicado no Canadian Medical Association Journal e “Fish, human health and marine ecosystem health: policies in collision“, publicado no International Journal of Epidemiology.

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Alimentação e medicamentos tradicionais aumentam o consumo de animais selvagens na China

A China, reconhecidamente, é a maior responsável pela captura de animais selvagens, para fins alimentares e produção de medicamentos “tradicionais”. Relatório da Traffic, uma rede internacional monitoração do comércio de espécies selvagens, destaca que o consumo chinês está aumentando rapidamente, o que coloca diversas espécies em riscos adicionais de extinção. Por Henrique Cortez*, do EcoDebate.

O relatório “The State of Wildlife Trade in China” informa que a medicina tradicional chinesa cresce à taxa anual de 10%, com impactos nas populações de animais e de plantas medicinais, que têm diminuído rapidamente, em valores estimados de 15 a 20%.

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Um terço da captura mundial de peixe é desperdiçado na produção de ração animal

[One-third of the world’s fish catch is wasted in the production of animal feed]


Foto Greenpeace

Rações preparadas a partir de peixes representam 37% (31,5 milhões de toneladas) do total de peixes retirados dos oceanos a cada ano e 90 % das capturas transformam-se em farinha e óleo de peixe. Em 2002, 46% de farinha de peixe e óleo de peixe foram utilizadas como alimento para a aqüicultura (piscicultura), 24% para alimentar porcos e 22% para a alimentação de aves.

É o que demonstra um novo estudo alarmante, que será publicado em novembro na revisão anual do Annual Review of Environment and Resources, documentando que um terço das capturas mundiais de peixes, marinhos e fluviais, é destinado à alimentação de peixes, porcos e aves, desperdiçando um precioso recurso alimentar para seres humanos e menosprezando a grave crise de sobrepesca nos oceanos. Por Henrique Cortez, do EcoDebate.

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Pesquisa afirma que a população britânica deveria limitar o consumo de carne e leite para ajudar a combater as mudanças climáticas


Relatório da Universidade de Surrey, citado por Juliette Jowit, do The Guardian, sugere que carne deve ser consumida quatro vezes por semana por pessoa, para reduzir os impactos nas mudanças climáticas. Por Henrique Cortez, do EcoDebate.

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